EUA atacam Venezuela e reacendem debate sobre intervenções na América Latina

Caracas — Os Estados Unidos lançaram na madrugada do último sábado (3) uma operação militar de grande escala contra a Venezuela, com relatos de explosões em Caracas e nos estados de Miranda, Aragua e La Guaira. De acordo com fontes oficiais venezuelanas, a ação resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores.

O ataque marcou a primeira movimentação militar norte-americana de grande porte no continente nesta década e ampliou o debate sobre o histórico de intervenções de Washington na região. Até o momento, não há informações detalhadas sobre número de vítimas, duração exata do confronto nem sobre eventuais negociações posteriores. Tampouco foram divulgados posicionamentos formais do governo dos EUA ou de organismos internacionais.

Intervenções diretas desde o século XIX

O envolvimento militar dos Estados Unidos na América Latina remonta ao século XIX, quando a Doutrina Monroe expressou a intenção de afastar potências europeias do hemisfério. Na virada para o século XX, a política do Big Stick consolidou a prerrogativa de intervenção, empregada em países como Cuba, Haiti, República Dominicana e Nicarágua.

Entre 1900 e 1920, o presidente Woodrow Wilson autorizou operações que incluíram o estabelecimento de protetorados no Caribe e a presença militar no México durante a Revolução Mexicana. Segundo registros históricos, o mandatário norte-americano justificava essas ações como forma de “ensinar as repúblicas a elegerem homens bons”, evidenciando a tentativa de moldar sistemas políticos alinhados a interesses de Washington.

A atuação estadunidense também influenciou processos de organização interna de novos Estados hispano-americanos no século XIX, cenário marcado pela disputa entre projetos unitários e federalistas. Embora a participação direta dos EUA nas guerras de independência tenha sido limitada, a pressão diplomática e comercial ganhou força conforme o país expandia sua influência.

Guerra Fria: apoio a golpes e confrontos indiretos

Durante a Guerra Fria, a preocupação com a expansão soviética levou os Estados Unidos a reforçar estratégias de contenção no continente. A Revolução Cubana, em 1959, tornou-se ponto de inflexão: no ano seguinte, Washington lançou a Aliança para o Progresso, programa que prometia recursos financeiros a governos latino-americanos dispostos a adotar reformas econômicas e romper vínculos com Havana.

Em abril de 1961, uma tentativa apoiada pelos EUA para invadir Cuba terminou em fracasso na Baía dos Porcos. Um ano depois, a Crise dos Mísseis envolveu a instalação de ogivas soviéticas na ilha e deixou o mundo à beira de um confronto nuclear. O episódio consolidou Cuba como aliada de Moscou e amplificou a política norte-americana de evitar a replicação do modelo cubano em outras nações.

No Cone Sul, militares treinados na Escola das Américas, instituição mantida pelos EUA, assumiram papéis centrais em regimes instaurados entre as décadas de 1960 e 1980. A coordenação repressiva ficou conhecida como Operação Condor, iniciativa que envolveu Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai, Bolívia e Brasil no intercâmbio de informações e prisões de opositores.

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Imagem: Internet

O apoio político, financeiro e logístico de Washington foi citado por historiadores em episódios como o golpe de Estado que levou Augusto Pinochet ao poder no Chile, em 1973, e a sustentação de ditaduras militares no Brasil e na Argentina. Documentos desclassificados nas últimas décadas revelam reuniões, repasses de recursos e orientações que reforçam a participação norte-americana em manobras para afastar líderes civis considerados hostis.

Repercussões do ataque atual

A ofensiva contra Caracas motivou reações imediatas em capitais latino-americanas. Governos aliados de Maduro pediram reuniões de emergência em organizações multilaterais, enquanto autoridades de países que mantêm alinhamento com Washington aguardam posicionamento oficial antes de declarar apoio ou repúdio.

Analistas lembram que o princípio de não intervenção está previsto na Carta da Organização dos Estados Americanos (OEA), mas pode ser contornado por resoluções que aleguem ameaças à segurança hemisférica ou violações de direitos humanos. No caso venezuelano, o impasse político prolongado, marcado pela contestação internacional das últimas eleições presidenciais, vinha ampliando a pressão externa por mudanças no país.

Embora detalhes operacionais permaneçam sob sigilo, a captura de Maduro encerra, ao menos temporariamente, o controle exercido pelo líder sobre as Forças Armadas e estruturas administrativas. Observadores destacam que a sucessão de poder e a eventual convocação de eleições dependerão tanto da estabilidade interna quanto de acordos diplomáticos após a intervenção.

O episódio recoloca em evidência uma pauta histórica: o alcance das ações norte-americanas na América Latina. À medida que novos desdobramentos surgirem, especialistas preveem que temas como soberania, autodeterminação e segurança regional voltarão a ocupar o centro das discussões internacionais.

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