Famílias brasileiras têm recorrido a sinais simples para permitir que bebés expressem vontades antes do aparecimento da fala. A prática ganhou visibilidade nas redes sociais e, segundo profissionais de saúde, pode facilitar a rotina doméstica sem prejudicar o desenvolvimento da linguagem.
Como a técnica é aplicada a partir dos 6 meses
De acordo com o neurologista infantil Anderson Nitsche, do Hospital Pequeno Príncipe, entre o sexto e o oitavo mês de vida o bebé já dispõe de coordenação motora fina suficiente para executar gestos específicos. Essa habilidade surge antes da coordenação oromotora, necessária para articular palavras, permitindo a comunicação não verbal.
Nesse período, pais e cuidadores introduzem movimentos que representam ações rotineiras, como “água”, “quero mais”, “mamar”, “trocar fralda” e “dormir”. Não há um código universal: cada família pode definir seus próprios gestos, desde que use sempre o mesmo padrão e associe a palavra falada ao sinal. A repetição cria a ligação entre gesto e significado, e, em pouco tempo, a criança passa a utilizar o movimento quando precisa de algo.
Para evitar confusão, profissionais destacam que essa estratégia não se relaciona à Língua Brasileira de Sinais (Libras). “Libras é uma língua completa, com gramática própria”, explica o otorrinolaringologista e foniatra Gilberto Ferlin, da PUC-SP. Já os sinais para bebés ouvintes consistem em mímicas transparentes, acordadas no âmbito familiar e sempre acompanhadas da fala.
Impacto na fala e marcos de desenvolvimento
Especialistas consultados afirmam que os sinais não atrasam a oralidade quando apresentados em paralelo à linguagem oral. A fonoaudióloga Mariana Peters, da clínica Falafetiva, recomenda interpretar o gesto da criança e responder com perguntas, ampliando o vocabulário. “Se o bebé apenas sinaliza e recebe o que deseja de forma imediata, o estímulo à fala diminui”, alerta.
Os marcos indicados por Ferlin ajudam a monitorar o progresso: até um ano, a criança deve dizer duas ou três palavras; entre 18 e 24 meses, combinar duas; por volta dos três anos, ser compreendida por pessoas fora da família. Caso esses pontos não sejam alcançados, a orientação é buscar avaliação pediátrica ou fonoaudiológica, independentemente do uso de sinais.
Benefícios observados pelas famílias
Relatos de cuidadores sugerem redução de choro e menor frustração, resultado da comunicação mais clara. Nitsche reforça que a técnica melhora a troca de olhares e a compreensão dos pais sobre o que o filho deseja. No entanto, pesquisas sobre bebés ouvintes ainda são limitadas e não apontam ganhos cognitivos além do esperado.
Imagem: Internet
O consenso entre especialistas é de que a prática é opcional. Afeto, interação constante e acompanhamento do desenvolvimento continuam a ser os pilares para uma infância saudável, com ou sem sinais.
Cuidados e recomendações
Para implementar a estratégia, profissionais sugerem:
- Apresentar o gesto e pronunciar a palavra simultaneamente.
- Repetir em diferentes momentos do dia, reforçando a associação.
- Observar se a criança responde ao estímulo sem sinais de frustração.
- Estimular a fala sempre que possível, fazendo perguntas curtas e claras.
- Interromper a prática se houver redução do interesse em vocalizar palavras.
Os sinais podem ser introduzidos gradualmente e abandonados conforme o vocabulário cresce. Ferlin frisa que é mais prático verbalizar do que gesticular; por isso, a tendência natural é que as palavras substituam os movimentos ao longo do segundo ano de vida.
Em síntese, ensinar gestos a bebés ouvintes é uma alternativa para antecipar a comunicação, facilitar cuidados diários e fortalecer vínculos familiares. Embora seja considerada segura, a técnica não é obrigatória. A principal recomendação permanece a mesma: acompanhar atentamente cada etapa do desenvolvimento e procurar apoio profissional se surgirem dúvidas ou atrasos.





