Movimentos recentes dos Estados Unidos na América Latina e no Ártico estariam a contribuir para o fortalecimento da ofensiva militar russa na Ucrânia. A avaliação é do historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e do analista de geopolítica Robinson Farinazzo, oficial da reserva da Marinha do Brasil. Ambos apontam que a atenção de Washington ao chamado “quintal” hemisférico abre espaço para que Moscou intensifique operações no leste europeu.
Prioridade norte-americana no hemisfério
Segundo Teixeira da Silva, a decisão dos EUA de intervir militarmente na Venezuela e de lançar ameaças contra Colômbia, Groenlândia e México reforça a percepção de que Washington está concentrado em questões regionais. O historiador recorda declarações atribuídas ao senador Marco Rubio, descrito como secretário de Estado norte-americano, classificando a América como área de interesse exclusivo dos EUA. Para o professor, essa postura “pode funcionar como uma autorização tática” para o Kremlin buscar uma solução definitiva no conflito ucraniano.
A análise ocorre após a Rússia realizar, na noite anterior, um ataque maciço contra a Ucrânia, combinando drones com o míssil hipersónico Oreshnik. De acordo com informações divulgadas, o artefato atinge até dez vezes a velocidade do som e é considerado indetectável pelos atuais sistemas de defesa aérea ocidentais. Foi a segunda vez que Moscou empregou essa arma no teatro ucraniano.
O contexto internacional é descrito por Teixeira da Silva como uma “nova ordem de cada um por si”. Para ele, o ex-presidente Donald Trump teria ganhado margem de manobra após a incursão na Venezuela e demonstraria disposição para avançar sobre outros territórios, incluindo a Groenlândia. “Se Trump organiza o quintal dos Estados Unidos, a Rússia também tratará de organizar o seu”, resume o historiador.
Impacto sobre a segurança europeia
No campo europeu, Robinson Farinazzo sustenta que as ambições norte-americanas na Groenlândia deixam o continente em situação “ainda mais delicada”. O analista argumenta que a eventual disputa pelo território ártico, somada à pressão russa no leste, exporia a Europa a dois focos simultâneos de tensão. “Com um míssil hipersónico dessa capacidade e o interesse dos EUA na Groenlândia, vários líderes europeus terão de rever prioridades”, avalia.
Farinazzo acrescenta que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) não dispõe de meios para interceptar o Oreshnik. Além disso, uma ação unilateral de Washington no Ártico poderia fragilizar a coesão interna da aliança. “Se Trump tomar a Groenlândia sem o aval europeu, a Otan perde sentido”, sustenta. Divergências internas, como as ambições turcas no Oriente Médio, também são citadas como fatores de divisão.
Ataque hipersónico como recado político
Para Teixeira da Silva, o lançamento do míssil serve de aviso do presidente Vladimir Putin aos governos europeus, acusados de dificultar negociações de paz e de apoiar ataques contra alvos russos. O professor menciona a ofensiva não reivindicada contra uma residência presidencial em Novgorod e contra a base aérea de Murmansk, enfatizando que Kiev não teria capacidade de realizar tais operações sem assistência externa, sobretudo britânica.
Na visão do historiador, Washington já não estaria disposto a impedir o avanço russo em solo ucraniano. Em vez disso, o governo norte-americano usaria sanções ou pressões sobre países que compram petróleo russo como forma de conter a influência de Moscou nos Brics ou no mercado energético internacional.
Imagem: ultimas notícias
Situação no terreno ucraniano
Os especialistas convergem ao afirmar que o quadro militar favorece a Rússia. Teixeira da Silva calcula que 20% a 25% do território ucraniano encontra-se sob ocupação russa e destaca a tomada do chamado “corredor de Odessa”, rota crucial para a exportação de grãos. Ele critica o que classifica como “bloqueio informativo” ocidental sobre as vitórias russas.
Farinazzo concorda que o objetivo do Kremlin é neutralizar as forças armadas ucranianas, mas observa limitações para conquistas rápidas devido aos sistemas defensivos de Kiev. “A estratégia russa é de desgaste, e isso pode prolongar o conflito por bastante tempo”, afirma.
Apesar das ações ofensivas, a Ucrânia continua a executar operações pontuais para demonstrar capacidade de resposta. No entanto, os analistas consideram que essas iniciativas não alteram o balanço geral de poder, que se inclina progressivamente em favor de Moscou.
Estratégia global em transformação
A publicação recente da Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, reafirmando a primazia de Washington no Hemisfério Ocidental, é citada como um recado a rivais como China e Rússia. Para Teixeira da Silva, o documento reforça a leitura de que os EUA priorizam temas regionais, enquanto Moscou se beneficia da dispersão de atenções para consolidar avanços no leste europeu.
Nesse cenário, segundo os especialistas brasileiros, a Europa emerge como o ator mais vulnerável: pressionada a leste pela Rússia, a oeste por uma eventual disputa ártica com os EUA e internamente por divergências políticas. A combinação desses fatores, afirmam, cria o ambiente que permite a Putin expandir operações militares enquanto a Aliança Atlântica e os Estados Unidos concentram-se em agendas paralelas.





