Fósseis de 770 mil anos revelam linhagem próxima ao ancestral de humanos e neandertais

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Uma equipa internacional de paleoantropólogos descreveu fósseis humanos com cerca de 770 mil anos encontrados no Marrocos que podem representar uma linhagem situada próximo da origem comum do Homo sapiens, dos neandertais e dos denisovanos. Os resultados foram publicados na revista científica Nature na última quarta-feira (7).

Escavações em Casablanca trazem novo capítulo à evolução humana

Os vestígios foram recuperados na “Grotte à Hominidés”, caverna localizada nas proximidades de Casablanca. Explorações esporádicas começaram no fim da década de 1960, mas apenas a partir dos anos 1990 as escavações passaram a seguir protocolos sistemáticos. Além de artefactos líticos e restos de antigos mamíferos, os investigadores recolheram três mandíbulas humanas, dentes isolados, vértebras e parte de um fémur que apresenta marcas de mordida atribuídas a um grande carnívoro, possivelmente uma hiena.

A abertura na rocha formou-se por ação marinha durante um período de nível oceânico elevado. Com o tempo, a cavidade foi preenchida por camadas de sedimentos transportados pelas marés, pelo vento e por processos continentais. Esse contexto geológico preservou os fósseis em sucessivos estratos, permitindo datar o material com diferentes métodos.

Datação aponta para o início do Pleistoceno Médio

Para estabelecer a idade dos ossos, a equipa recorreu a várias técnicas, incluindo análise de alteração do campo magnético terrestre registada nos sedimentos. Segundo os autores, esse método oferece a estimativa mais fiável para o sítio e indica que os fósseis têm aproximadamente 770 mil anos, período correspondente ao início do Pleistoceno Médio.

A data é relevante por coincidir com cálculos genéticos que propõem a separação das linhagens que levaram, de um lado, aos humanos modernos e, de outro, aos neandertais e denisovanos. Actualmente, genomas completos dessas três espécies permitem estimar, ainda que de forma aproximada, quando os seus antepassados deixaram de partilhar genes de maneira contínua e passaram a seguir trajetórias evolutivas distintas.

Características mistas reforçam cenário de origem africana

A análise morfológica mostra que os fósseis marroquinos exibem um mosaico de traços. Alguns remetem a espécies africanas mais antigas do género Homo; outros surgem apenas mais tarde, tanto em Homo sapiens quanto em neandertais e denisovanos. Para Jean-Jacques Hublin, do Collège de France e do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionista, esses achados configuram “os melhores candidatos actuais” a populações africanas próximas da raiz partilhada por todos esses grupos, reforçando a noção de uma origem profunda do ser humano moderno no continente africano.

O conjunto agora descrito soma-se a outro fóssil importante: Homo antecessor, identificado em Atapuerca, Espanha, cuja idade estimada varia entre 950 mil e 770 mil anos. As datas semelhantes e a proximidade geográfica — separadas apenas pelo estreito de Gibraltar — sugerem possíveis ligações biogeográficas entre as duas faunas humanas do início do Pleistoceno Médio.

Fósseis de 770 mil anos revelam linhagem próxima ao ancestral de humanos e neandertais - Imagem do artigo original

Imagem: Internet

Comparação com Homo antecessor e debate em aberto

Apesar da coincidência temporal, a equipa conclui que o espécime espanhol se encontra mais próximo das linhas neandertal-denisovana, enquanto os fósseis marroquinos mantêm combinações de características mais antigas e mais recentes. Essa distinção apoia a hipótese de que a caverna de Casablanca preserva um grupo ainda perto da bifurcação que deu origem aos ramos evolutivos subsequentes.

Especialistas externos destacam, porém, que o cenário permanece provisório. Antonio Rosas, do Museu Nacional de Ciências Naturais de Madrid, observa que tanto o material marroquino quanto o espanhol devem ser entendidos como membros de ramos aparentados situados perto da divisão ancestral, mas não necessariamente como o próprio ancestral comum. Segundo Rosas, novas descobertas e análises comparativas serão necessárias para confirmar a posição filogenética exacta de cada conjunto fóssil.

Próximos passos para esclarecer a linhagem humana

O estudo sublinha a importância de integrar evidências anatómicas, geológicas e genéticas para reconstruir o percurso evolutivo do género Homo. Os autores planeiam ampliar a amostragem de fósseis na região de Casablanca e aplicar técnicas adicionais de datação, como termoluminescência e análise de isótopos, na tentativa de refinar a cronologia do sítio.

Enquanto isso, as novas ossadas marroquinas adicionam dados à narrativa sobre onde e quando as diferentes espécies humanas se afastaram umas das outras. Caso novas investigações confirmem a interpretação proposta, a “Grotte à Hominidés” poderá consolidar-se como ponto chave para compreender o cenário evolutivo que antecede tanto o aparecimento do Homo sapiens em África quanto a expansão dos neandertais e denisovanos pela Eurásia.

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