Core Devices relança Pebble e aposta em vendas diretas sem modelo de startup

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LAS VEGAS — O criador do Pebble, Eric Migicovsky, apresentou na Consumer Electronics Show (CES) a estratégia da Core Devices, nova empresa responsável pelo regresso dos smartwatches Pebble e pela estreia de um anel inteligente com IA. Segundo o executivo, a operação foi desenhada para ser “sustentável e lucrativa”, recusando o rótulo de startup e dispensando investimento externo.

Modelo enxuto e lições do passado

A Core Devices funciona com uma equipa de apenas cinco pessoas, vende exclusivamente pelo próprio site e produz cada unidade apenas depois da confirmação de compra, evitando acumular stock. A abordagem é resultado direto das dificuldades enfrentadas pela antiga Pebble, que em 2015 estimou vendas de 102 milhões de dólares, fabricou além da procura e acabou obrigada a liquidar excedentes com desconto. O desequilíbrio levou a cortes de pessoal, à venda da companhia à Fitbit por cerca de 40 milhões de dólares e, posteriormente, à integração do negócio na Google.

“Hardware é diferente de software: é preciso prever a procura antes de fabricar”, recordou Migicovsky. Com a nova estrutura, o fundador quer evitar o erro de “perder de vista a visão original” e manter foco num público específico — entusiastas de tecnologia que apreciam personalização e simplicidade, sem procurar substituir o telemóvel pelo relógio.

Novos produtos e regresso do PebbleOS

A linha anunciada inclui o Pebble Time 2, o Pebble Round 2 e o Index 01, anel inteligente de 75 dólares concebido para interagir com assistentes de IA. Os dispositivos utilizam o PebbleOS, sistema operativo tornado open source pela Google após pedido do próprio Migicovsky. O código, que exigiu originalmente uma equipa de 30 a 40 engenheiros, garante compatibilidade com as 15 mil watch faces e apps já existentes e será acompanhado pelo relançamento do kit de desenvolvimento (SDK) “nas próximas semanas”.

Sem intermediários, a empresa registou até agora 25 000 pré-encomendas dos novos relógios e 5 000 do anel. Os envios estão previstos com antecedência de seis meses, prazo que o fundador pretende reduzir para “algumas semanas” à medida que a produção se estabilizar. Migicovsky afirma que as receitas atuais cobrem os custos operacionais e financiam próximos projetos, ainda não revelados.

Público-alvo e posicionamento de mercado

Diferentemente de marcas que apostam em funções avançadas de saúde ou na substituição plena do smartphone, a Core Devices define os Pebble como companheiros do telemóvel, com foco em notificações, personalização e longa autonomia. O objetivo é oferecer uma experiência “mais próxima de um Swatch do que de um Rolex”, com design casual, preço contido e ênfase na diversão — características que marcaram o sucesso inicial da marca no Kickstarter em 2012.

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A decisão de evitar capital de risco e manter equipa reduzida visa garantir independência e ritmo próprio de crescimento. “Startups são importantes para ideias realmente novas, mas estamos a retomar um conceito existente”, justificou Migicovsky, indicando que a empresa prefere evoluir gradualmente, “um bloco de cada vez”, com produtos simples que resolvam necessidades pessoais do criador e da comunidade.

Perspetivas e próximos passos

Com pré-vendas sólidas, catálogo definido e infraestrutura de software restabelecida, a Core Devices planeia atingir ciclos de produção mais curtos e expandir o ecossistema de aplicações através do SDK reativado. Novas categorias de hardware não foram detalhadas, mas Migicovsky garante que seguirão a mesma filosofia: equipamentos “divertidos, casuais e que funcionem em conjunto”.

Ao optar por uma operação enxuta e autofinanciada, o fundador pretende demonstrar que é possível sustentar negócios de hardware sem recorrer a modelos tradicionais de startup nem depender de grandes volumes de capital — uma abordagem que contrasta com o percurso anterior da Pebble e pode servir de referência para outras iniciativas no segmento.

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