Um aplicativo pago criado para monitorar a segurança de quem mora sozinho chegou ao primeiro lugar da App Store na China continental. Batizado de “Si Le Me” — expressão que pode ser traduzida como “Tá morto?” —, o software foi desenvolvido pela Moonscape Technologies e baseia-se num sistema simples de check-in periódico.
Como funciona a ferramenta
Após a instalação, o utilizador define um intervalo máximo de inatividade de 48 horas. Se não abrir o app dentro desse período, o serviço dispara, no terceiro dia, um e-mail automático para um contacto de emergência previamente cadastrado, informando a possibilidade de um problema. A proposta é funcionar como um mecanismo de alerta em situações de queda, doença súbita ou outro incidente que impeça o usuário de comunicar-se.
Segundo a empresa, os dados ficam armazenados localmente e o e-mail é enviado apenas quando o tempo limite é ultrapassado. O recurso destina-se sobretudo a pessoas que vivem sozinhas, segmento em crescimento nas grandes cidades chinesas.
Mudanças demográficas impulsionam a procura
Dados oficiais indicam que, em 2024, uma em cada cinco residências na China era ocupada por uma única pessoa — aumento de cinco pontos percentuais em relação a 2014. A tendência acompanha o recuo do casamento, o adiamento da formação de família e a dificuldade de adultos conviverem com os pais em zonas urbanas de elevado custo.
Esse contexto tornou o “Si Le Me” relevante ao oferecer uma camada mínima de segurança onde laços familiares próximos já não são garantidos. A popularidade também reflete uma transição mais ampla, em que soluções digitais assumem responsabilidades antes concentradas na família ou na comunidade.
Receção dividida entre jovens e idosos
O título provocativo do aplicativo gera reações ambíguas. Yaya Song, 27 anos, profissional de tecnologia que mora sozinha, diz ter ficado curiosa mas considera a cobrança elevada para a função proposta. Ela avalia que, na prática, empresas ou colegas de trabalho costumam notar ausências antes da família.
Para Huang Zixuan, estudante de 20 anos, o nome é “sombrio” e inviabiliza a recomendação a parentes mais velhos. Já Sasa Wang, funcionária de escritório de 36 anos, enxerga utilidade no serviço: à medida que se aproxima dos 40, passou a pensar no risco de enfrentar emergências sem ninguém por perto.
Imagem: Tecnologia Inovação Notícias
A repercussão levou Hu Xijin, ex-editor-chefe do jornal estatal Global Times, a sugerir publicamente a troca do nome para “Huozheme” (“Você está vivo?”), considerada formulação menos angustiante. A Moonscape Technologies informou que avalia a mudança, mas muitos utilizadores argumentam que a referência direta à morte chama atenção para um problema real.
App pago e liderança nas vendas
Diferente da maioria dos aplicativos de monitorização, o “Si Le Me” cobra taxa única pela instalação. Mesmo assim, alcançou o topo do ranking de apps pagos na App Store chinesa, excluindo Hong Kong e Macau. O desempenho comercial confirma a disposição de parte do público em pagar por serviços que contribuam para a sensação de segurança individual.
Analistas apontam que a liderança na loja da Apple se deve, em parte, ao aumento das discussões nas redes sociais sobre isolamento urbano e vulnerabilidade de idosos que vivem sozinhos. Esses debates reforçam a procura por ferramentas consideradas pragmáticas, ainda que simples.
Reflexo de um mal-estar social
Mais do que um dispositivo de alerta, o “Si Le Me” tornou-se símbolo da solidão urbana num país onde laços familiares tradicionais passam por transformação rápida. Ao transferir a tarefa de verificar o bem-estar de alguém para um algoritmo, a sociedade evidencia a dificuldade de manter redes de apoio humanas.
Enquanto a modernização avança, a preocupação com quem cuida de quem continua em aberto. O sucesso do aplicativo mostra que, pelo menos por agora, parte da resposta está a migrar para soluções digitais pagas.





