App offline de Jack Dorsey ganha força em Uganda e Irã durante cortes de internet

Imagem representando tecnologia e inovação

Um aplicativo de mensagens que funciona sem acesso à internet, desenvolvido pelo cofundador do Twitter, Jack Dorsey, tornou-se um recurso amplamente adotado em Uganda e no Irã após sucessivos bloqueios de conectividade impostos pelos governos locais. O Bitchat, baseado em tecnologia de malha via Bluetooth, alcançou o topo das lojas da Apple e do Google em território ugandense e triplicou o número de utilizadores em solo iraniano.

Descargas disparam após alertas de censura em Uganda

Dados da empresa de análises Apptopia indicam que o Bitchat registou mais de 28 000 descargas em Uganda desde o início do ano, volume cerca de quatro vezes superior ao somado nos dois meses anteriores. O aumento coincidiu com o bloqueio nacional da internet promovido pelas autoridades na terça-feira anterior às eleições de quinta-feira, em que o presidente Yoweri Museveni tenta prolongar um mandato de quase 40 anos.

A escalada de downloads também foi impulsionada pelo apelo público do músico e principal candidato da oposição, Bobi Wine. No fim de dezembro, o político incentivou os eleitores a instalarem o app para garantir comunicação e publicação de resultados eleitorais, alegando que o governo preparava um apagão digital.

Com o corte da rede, os serviços de telefonia celular foram igualmente limitados. Organizações de direitos humanos, entre elas a Anistia Internacional, condenaram a medida e solicitaram a restauração imediata do acesso, argumentando que desligamentos da internet comprometem liberdades fundamentais e não reduzem a desinformação.

Tecnologia sem internet atende manifestantes no Irã

No Irã, o Bitchat também ganhou protagonismo diante das restrições impostas para conter protestos de rua. Segundo a Apptopia, a base de utilizadores no país persa cresceu mais de três vezes no mesmo período. A adoção reproduz padrões observados em anos recentes, quando softwares semelhantes, como o Bridgefy, foram utilizados em manifestações em Hong Kong (2020) e Mianmar (2021).

O funcionamento do Bitchat dispensa login, utiliza interface mínima e recorre à formação de uma rede privada entre dispositivos próximos. Cada mensagem percorre um “salto” sucessivo de telemóveis até chegar ao destino, eliminando a necessidade de roteadores, antenas de telecomunicações ou infraestrutura centralizada.

Jack Dorsey critica centralização da web

Lançado em julho do ano passado após uma semana de programação, de acordo com Dorsey, o aplicativo reflete a insatisfação do empresário com a concentração de poder na internet. Em declarações públicas, o fundador afirmou sentir-se “parcialmente culpado” pela centralização e defendeu alternativas descentralizadas.

Ao contrário do antigo Twitter, hoje rebatizado de X e sob comando de Elon Musk, o Bitchat não depende de servidores externos nem recolhe registos de utilizador. Essa arquitetura, apontam especialistas, reduz a exposição a bloqueios governamentais, mas também impõe limitações, como alcance restrito ao raio de ação do Bluetooth.

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Imagem: Internet

Repercussão internacional sobre cortes de internet

O deslocamento para plataformas offline ocorre em contexto de apagões digitais cada vez mais frequentes. Levantamento de 2024 da organização Access Now e da coligação #KeepItOn contabilizou 296 interrupções deliberadas em 54 países. O professor assistente da Universidade de Cornell, Aditya Vashistha, sustenta que tais ações “reduzem a coordenação e o intercâmbio de informação, com evidências limitadas de impacto real no combate à desinformação”.

Em Uganda, além do bloqueio, forças de segurança detiveram centenas de simpatizantes da oposição e usaram munição real e gás lacrimogéneo em eventos de campanha. Entidades internacionais argumentam que a conjugação de repressão física e censura digital agrava o risco de violações de direitos e dificulta a observação do processo eleitoral.

Aplicativos offline ganham terreno

A procura por soluções baseadas em Bluetooth não atinge volumes comparáveis aos de serviços como WhatsApp ou Telegram, mas cresce em ciclos de instabilidade política. Especialistas lembram que a tecnologia mesh exige densidade de utilizadores para manter ligações estáveis; ainda assim, permanece uma alternativa viável quando as redes convencionais são bloqueadas.

Com a popularização do Bitchat, analistas acompanham se governos ampliarão métodos de contenção, como restrições a rádios de curto alcance ou bloqueios de hardware. Até o momento, porém, as legislações focam sobretudo na infraestrutura de internet e nas operadoras de telecomunicações, o que mantém os aplicativos offline operacionais.

Enquanto Uganda aguarda os resultados oficiais e o Irã enfrenta protestos persistentes, o Bitchat consolida-se como exemplo de como ferramentas tecnológicas podem adaptar-se a ambientes de censura. O avanço da aplicação reforça o debate sobre descentralização, privacidade e liberdade de expressão em contexto digital global.

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