A Região Metropolitana de São Paulo iniciou o ano com precipitações abaixo da média histórica em quase todos os pontos de medição. De acordo com informações compiladas pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), apenas o posto Mirante de Santana, na zona norte da capital, já ultrapassou a média de janeiro. Nos demais locais, o volume acumulado permanece inferior ao esperado e a tendência é de que o cenário se mantenha durante todo o primeiro trimestre.
Déficit de chuva persiste no primeiro trimestre
A ausência de frentes frias oriundas do Sul e a menor umidade transportada do Atlântico e da Amazônia explicam a escassez de chuva. Esses dois mecanismos atmosféricos estão sendo bloqueados pela atuação contínua do fenômeno La Niña no oceano Pacífico, confirmado pelo Inmet. O meteorologista Leydson Dantas, do órgão, estima que toda a faixa que vai do sul da mesorregião de Bauru até a Grande São Paulo enfrentará precipitação inferior à média até março.
No segundo semestre, a tendência pode se inverter. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) atribui 75 % de probabilidade ao enfraquecimento do La Niña, o que favoreceria a retomada de volumes mais próximos do normal. Até lá, a previsão indica manutenção da seca em São Paulo e chuvas intensas concentradas na Região Sul, especialmente litoral do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, além de áreas da Argentina e do Uruguai.
Reservatórios entram em faixa crítica
A redução das chuvas já se reflete nos sistemas que abastecem a capital e os municípios vizinhos. Nesta sexta-feira (16), o Sistema Integrado Metropolitano, monitorado pela Sabesp, operava com 27,7 % de sua capacidade — valor idêntico ao verificado em 16 de janeiro de 2016, período de recuperação da seca histórica de 2015. Dentro desse conjunto, o sistema Cantareira apresenta o quadro mais preocupante: 19,39 % do volume máximo, com o reservatório Jaguari-Jacareí respondendo por 16,89 %.
Segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o estado atravessa condição de seca severa ou extrema desde janeiro de 2024, à exceção da porção norte, classificada como seca severa. A escassez hídrica também se reflete na disponibilidade per capita, hoje estimada em 149 m³ por habitante ao ano, patamar comparável a regiões semiáridas.
Medidas emergenciais e possíveis impactos
A Sabesp informa que vem ampliando a captação no sistema Alto Tietê, acrescentando água retirada do rio Itapanhaú, e investindo na modernização de tubulações, estações de tratamento e bombeamento para reduzir perdas. Desde agosto de 2025, a companhia também pratica interrupções noturnas de até dez horas em parte da rede de distribuição.
Apesar dessas ações, a empresa reconhece que as reservas continuam em patamar crítico. Caso o conjunto de represas do Sistema Integrado Metropolitano caia para a Faixa 4 de Atuação — acionada quando o nível permanece abaixo de 27,53 % por sete dias consecutivos —, protocolos mais rigorosos serão adotados. A Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp) acompanha o quadro e destaca que a Gestão de Demanda Noturna já economizou 70,29 bilhões de litros entre agosto de 2025 e o início de janeiro.
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No campo agrícola, a ANA aponta impactos de longo prazo nas regiões noroeste e leste do estado, enquanto setores urbano e industrial começam a sentir reflexos imediatos, como maior risco de rodízios e aumento de custos operacionais. A seca também favorece ondas de calor, reduz a qualidade do ar e eleva o consumo de energia elétrica para refrigeração.
Mapa nacional indica avanço da seca no Nordeste e melhora pontual no Sul
O Monitor de Secas da ANA, com dados de dezembro, mostra deterioração dos indicadores em parte do Nordeste, com avanço de seca extrema (S3) em Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Bahia. No Sudeste, Minas Gerais e Rio de Janeiro apresentam aumento de áreas classificadas como seca moderada e grave. Já o Sul do país registrou alívio em vários pontos, exceto no sul e sudoeste do Paraná, onde a seca fraca voltou a avançar.
Perspectivas climáticas
Para o Inmet, o primeiro trimestre de 2026 deverá terminar sem reposição significativa das reservas hídricas em São Paulo. Caso o La Niña perca força a partir de abril, existe possibilidade de chuvas mais frequentes no inverno e na primavera, mas ainda insuficientes para repor o déficit acumulado desde 2024. Especialistas recomendam que municípios, concessionárias e consumidores mantenham uso racional da água e planejem contingências para períodos de estiagem prolongada.
A continuidade da crise hídrica reforça a necessidade de obras estruturais, como interligações de bacias e incremento de fontes alternativas, além de políticas permanentes de redução de perdas e campanhas de consumo consciente.





