Até 24 de janeiro, a Escola de Música de Brasília (EMB) realiza o Curso Internacional de Verão com a participação de antigos estudantes que conquistaram destaque em orquestras e universidades fora do país. O programa oferece aulas gratuitas a jovens instrumentistas e pretende demonstrar, na prática, o alcance profissional da formação pública em música.
Ex-alunos regressam como professores
Entre os convidados, o oboísta Ravi Shankar Domingues, 42 anos, ministra oficinas para a nova geração. Nascido em Santo Antônio do Descoberto (GO), ele iniciou a trajetória aos 10 anos, conciliando escola, coral e uma banda de forró com a venda de pano de prato em feiras locais. A mudança de rumo ocorreu quando um amigo da família o levou à EMB, a pouco mais de 40 km de casa. Mesmo enfrentando longas viagens diárias e o custo do transporte, Domingues conseguiu vaga na instituição por sorteio.
O preço elevado do oboé e o receio de falta de oportunidades não o desmotivaram. Formou-se em licenciatura em música na Universidade de Brasília (UnB), tocou simultaneamente em três orquestras em São Paulo e, após especialização em Rostock, na Alemanha, foi selecionado para a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. Há seis anos, tornou-se professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), onde fundou a Associação Brasileira de Oboé e Fagote e a Rede Brasileira de Saúde do Artista.
Para Domingues, retornar aos corredores da EMB como docente reforça a importância do acesso gratuito ao ensino. “Vejo nos atuais alunos histórias semelhantes à minha”, afirmou durante a abertura do curso.
Outro nome de destaque é o trombonista Lucas Borges, 44 anos, professor na Universidade de Ohio (EUA). Ex-integrante da banda marcial do Guará, ele conheceu o trombone na EMB e comprou o primeiro instrumento com o cachê de R$ 500 recebido em blocos de carnaval. Após graduação, concluiu mestrado e doutorado na Universidade de Indiana e leciona nos Estados Unidos há 11 anos.
A lista de professores inclui ainda o trombonista José Milton Vieira, atualmente na Orquestra Filarmônica de Melbourne, egressos que, segundo a direção, funcionam como exemplos concretos de mobilidade social pela música.
Trajetórias que ultrapassam fronteiras
O diretor da EMB, Davson de Souza, explicou que a estratégia de convidar ex-alunos “pratas da casa” visa reforçar o caráter formativo do evento. “Ao mostrar profissionais reconhecidos internacionalmente, provamos o valor do conhecimento adquirido aqui”, afirmou.
Esses percursos também inspiram estudantes de instrumentos populares. O bandolinista Ian Coury, 24 anos, passou pela EMB antes de ingressar no curso de música da Berklee College, em Boston. Atualmente, realiza workshops e concertos em vários países. Já o cavaquinista Matheus Donato, 26, iniciou os estudos na escola aos 10 anos e hoje vive em Paris, onde divulga o instrumento em projetos de experimentação musical.
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Para os participantes do curso, o contato direto com profissionais atuantes fora do Brasil amplia a compreensão sobre possibilidades de carreira. As aulas abrangem técnica instrumental, práticas de orquestra e orientações sobre condições de trabalho, tema que Domingues leva à sala por meio da Rede de Saúde do Artista.
Os encontros também permitem troca de experiências sobre adaptação cultural, financiamentos e exigências de mercados estrangeiros. “Entender a rotina de quem já trilhou esse caminho ajuda os alunos a planejar estudos, audições e estágios”, disse De Souza.
Inaugurada em 1960 e mantida pelo Governo do Distrito Federal, a EMB é considerada a maior escola pública de música do país, com cursos gratuitos que abrangem iniciação, nível técnico e licenciatura em convênio com a Universidade de Brasília. Parte significativa dos 1,7 mil estudantes atuais vem de cidades do entorno, repetindo trajetos como o percorrido por Domingues na infância.
Com a programação do Curso Internacional de Verão, a instituição reforça o papel de polo formador e demonstra que, apesar das dificuldades socioeconómicas enfrentadas por muitos alunos, a formação gratuita pode resultar em carreiras em universidades norte-americanas, orquestras europeias e centros culturais da Oceânia.
As atividades seguem até terça-feira, com concertos didáticos abertos ao público no auditório da escola. Ao fim do evento, os participantes recebem certificado de conclusão e orientações para continuar os estudos ao longo do ano letivo regular.





