Uma equipa internacional de investigadores propõe uma revisão profunda do conceito de desenvolvimento sustentável, substituindo o tradicional modelo dos “três pilares” por uma estrutura em camadas que interliga natureza, economia e sociedade. O apelo, liderado pelo biólogo marinho David Obura, sustenta que a abordagem atual não responde aos desafios colocados pelas alterações climáticas, perda de biodiversidade e desigualdades socioeconómicas.
Dois sentidos de atuação: de baixo para cima e de cima para baixo
No modelo sugerido, a natureza ocupa a base do sistema, fornecendo recursos essenciais que sustentam as economias. Estas, por sua vez, geram benefícios para a sociedade. Em sentido inverso, valores culturais, normas e sistemas de governança influenciam as decisões económicas, refletindo-se nos impactos sobre a natureza.
Segundo Obura, ultrapassar a visão de domínios separados permite acompanhar “o fluxo de benefícios da natureza através dos setores económicos até às pessoas” e compreender como escolhas quotidianas afetam o ambiente. Para os autores, esta leitura bidirecional assegura equilíbrio entre desenvolvimento humano e limites planetários.
Três tipos de capital interligados
Os investigadores descrevem o desenvolvimento sustentável como um sistema dinâmico sustentado por três capitais:
• Capital natural: solos, água, biodiversidade e clima que dão suporte à vida.
• Capital económico: infraestrutura, tecnologia e fluxo financeiro gerados a partir da exploração do capital natural.
• Capital social: instituições, conhecimento, coesão comunitária e valores que determinam como recursos e riquezas são distribuídos.
Esses capitais funcionam em circuito de retroalimentação. Sempre que um deles é superexplorado ou negligenciado, o sistema perde estabilidade e põe em risco o bem-estar coletivo. Para os autores, os problemas atuais não decorrem apenas de falhas de mercado, mas de “falhas de valores” que priorizam extração e lucro a curto prazo em detrimento de cuidado, reciprocidade e respeito.
Limitações do modelo dos três pilares
Introduzido há cerca de quatro décadas, o esquema que separa ambiente, economia e sociedade orientou políticas públicas e estratégias empresariais ao redor do mundo. No entanto, evidências acumuladas indicam que a compartimentação de prioridades agravou justamente as crises que pretendia resolver. Entre os exemplos citados estão o aquecimento global acelerado, a redução da diversidade biológica e o aumento da disparidade de rendimentos.
Para o grupo de cientistas, a fragmentação leva governos e empresas a concentrar esforços em metas económicas, tratando salvaguardas ambientais e inclusão social como objetivos paralelos ou secundários. A recomendação é abandonar intervenções isoladas e adotar políticas integradas, capazes de avaliar simultaneamente impactos ecológicos, ganhos financeiros e efeitos sobre a população.
Imagem: Tecnologia e Inovação
Quatro mudanças estruturais sugeridas
O artigo apresenta quatro direções consideradas essenciais para concretizar a “reinicialização” do sistema de desenvolvimento. Embora os detalhes completos não estejam divulgados no trecho consultado, os autores destacam a necessidade de:
1. Revalorizar a natureza como base insubstituível para atividades económicas e qualidade de vida.
2. Reorientar indicadores de progresso, incorporando métricas de saúde ambiental e bem-estar social além do crescimento do PIB.
3. Fortalecer governança inclusiva, garantindo participação de comunidades locais, setor privado e governos na tomada de decisões.
4. Integrar os três capitais em estratégias empresariais e políticas públicas, prevenindo a sobrecarga de qualquer componente do sistema.
Potencial de aplicação prática
Os cientistas argumentam que o modelo em camadas pode ser adotado por empresas, administrações municipais e governos nacionais. Ao rastrear o percurso dos recursos naturais até os resultados sociais, organizações teriam meios para identificar desequilíbrios, redefinir investimentos e alinhar incentivos económicos a metas ambientais. Esse enquadramento também facilitaria o planeamento de longo prazo, reduzindo riscos associados à degradação ecológica e às tensões sociais.
A proposta insere-se num debate global sobre sustentabilidade, que procura conciliar crescimento económico, justiça social e conservação dos ecossistemas dentro dos limites do planeta. Ao reforçar a interdependência entre natureza, economia e sociedade, os autores pretendem orientar políticas e práticas corporativas rumo a um desenvolvimento mais resiliente e equitativo.





