Relatórios revelam adoção desigual de IA entre países e dentro do Brasil

A difusão da inteligência artificial (IA) avança em ritmos distintos no mundo e dentro do Brasil, segundo novos levantamentos de organismos internacionais, empresas de tecnologia e entidades de pesquisa. Os dados apontam uma tendência de concentração de benefícios econômicos e sociais nos países já posicionados na fronteira tecnológica, enquanto nações com menor capacidade de investimento assumem um papel principalmente consumidor. O mesmo padrão aparece no mercado interno brasileiro, onde utilizadores de maior renda e escolaridade lideram o uso de ferramentas de IA.

Desigualdade tecnológica ganha novo impulso

Historicamente, a introdução de inovações marcou mudanças profundas na distribuição global de riqueza. No século XVIII, quase nenhum país ultrapassava 40 anos de expectativa de vida, a taxa de alfabetização global rondava 12% e a disparidade de renda entre regiões era modesta, de acordo com o historiador econômico Paul Bairoch. A Revolução Industrial alterou esse quadro, acelerando a produtividade na Europa Ocidental e nos Estados Unidos e abrindo uma distância expressiva em relação ao restante do mundo.

No início do século XX, o abismo já estava evidente: um cidadão da Noruega vivia, em média, 72 anos, enquanto um habitante do Afeganistão não ultrapassava 28 anos. Décadas depois, a globalização da cadeia produtiva — impulsionada pela internet — favoreceu um movimento de aproximação descrito pelo economista Richard Baldwin como “Grande Convergência”. Países como China, Índia e Vietname passaram a fabricar para empresas multinacionais, ganhando acesso a tecnologia, empregos e renda.

Hoje, relatórios sugerem que a IA pode inverter novamente esse ciclo. O The Next Great Divergence, publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), afirma que a tecnologia gerará prosperidade, mas de forma desigualmente distribuída. Estados Unidos, China, União Europeia e Coreia do Sul investem em centros de dados, semicondutores e modelos proprietários, enquanto economias menos desenvolvidas recorrem à IA “como serviço”, comprando soluções externas e capturando menos valor.

Adoção da IA reflete disparidades regionais

Indicadores de grandes empresas corroboram o cenário descrito pelo PNUD. Um relatório da Microsoft mostra que a taxa de adoção de IA no chamado Norte Global é quase duas vezes superior à verificada no Sul Global. Já o Índice Econômico da Anthropic observa que países ricos utilizam a tecnologia para incrementar produtividade no trabalho, enquanto nações de menor renda concentram o uso em tarefas pontuais.

A lógica de retornos crescentes — na qual quem começa primeiro acumula dados, talento e capital — tende a ampliar a distância entre quem desenvolve e quem apenas consome soluções de IA. Esse processo pode acelerar a concentração de renda e influência tecnológica, alertam os autores dos estudos.

Retrato brasileiro: acesso ainda restrito

O Brasil dispõe do Plano Brasileiro de IA (PBIA), que prevê investimento de R$ 23 milhões (corrigindo: R$ 23 bilhões) ao longo de quatro anos para fomentar pesquisa, inovação e formação de profissionais. Embora considerado significativo no contexto nacional, o montante permanece distante dos valores mobilizados por Estados Unidos e China.

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Imagem: Tecnologia & Inovação

No uso doméstico da IA, as disparidades seguem o padrão global. A pesquisa TIC Domicílios 2025 indica que 32% dos utilizadores de internet no país já recorrem a ferramentas de IA. Porém, a adesão varia conforme renda e escolaridade:

  • 69% dos indivíduos da classe A utilizam IA;
  • 32% na classe C;
  • 16% nas classes D/E.

No recorte educacional, 59% dos entrevistados com ensino superior declaram usar IA, ante 17% entre aqueles com ensino fundamental. Além disso, a maior parte das interações ainda ocorre em atividades pessoais, e não profissionais, sinalizando potencial inexplorado para ganhos de produtividade.

Capacitação desponta como desafio central

Especialistas identificam a formação de capital humano como condição decisiva para reduzir o hiato tecnológico. Países na fronteira da IA combinam pesquisa avançada, ecossistema de startups e regulação alinhada. Para nações emergentes, o desafio passa por criar infraestrutura digital, incentivar parcerias público-privadas e promover programas de qualificação.

No Brasil, a disponibilidade de dados em setores como agricultura, saúde e serviços pode sustentar aplicações de IA adaptadas às características locais. Observadores destacam, contudo, que políticas públicas necessitam priorizar conectividade, educação técnica e atração de investimentos, a fim de transformar uso recreativo em valor econômico.

Os levantamentos mais recentes convergem ao indicar que, sem ações coordenadas, a inteligência artificial tende a replicar — e possivelmente ampliar — disparidades históricas. A experiência da Revolução Industrial e da globalização sugere que o ritmo de adoção, a capacidade de inovação interna e a aplicação produtiva da tecnologia definirão os beneficiários da próxima onda de avanço tecnológico.

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