Quatro em cada cinco profissionais acreditam que a inteligência artificial modificará as suas tarefas diárias, segundo a edição 2024 do relatório Workmonitor, elaborado pela Randstad. O estudo identificou a Geração Z como a mais apreensiva diante da rápida adoção de chatbots e sistemas de automação nos ambientes corporativos.
Estudo abrange 35 mercados e revela ceticismo
A Randstad entrevistou 27 000 trabalhadores e 1 225 empregadores, além de analisar mais de 3 milhões de anúncios de emprego em 35 países. Publicados em 20 de janeiro, os dados mostram uma percepção generalizada de que a tecnologia emergente alterará rotinas, estruturas de carreira e exigências de qualificação.
Entre os participantes, 80 % afirmaram esperar mudanças concretas nas suas funções com a introdução de ferramentas de IA. A preocupação é mais acentuada entre pessoas nascidas a partir de meados dos anos 1990, faixa etária que já ocupa posições iniciais de carreira e encara incertezas sobre estabilidade profissional.
O presidente-executivo da Randstad, Sander van ’t Noordende, atribui o receio dos trabalhadores à busca constante das empresas por eficiência. “Os trabalhadores se mostram céticos, pois entendem que as organizações pretendem reduzir custos e aumentar produtividade”, declarou à agência Reuters.
Expansão de vagas ligadas a “agentes de IA”
O relatório também identifica um salto de 1 587 % na oferta de postos que exigem competências de “agente de IA”, categoria que inclui profissionais aptos a conceber, treinar ou supervisionar sistemas de inteligência artificial. O avanço sinaliza que, embora alguns papéis manuais ou transacionais estejam sob ameaça, surge um mercado novo e especializado para quem domina essas tecnologias.
Segundo o levantamento, tarefas consideradas de baixa complexidade — como processamento de dados simples ou atendimento padronizado — são as mais suscetíveis à automação. Em contrapartida, atividades que exigem pensamento crítico, criatividade e interação humana complexa tendem a manter relevância, ainda que com o apoio de algoritmos.
Divergência entre otimismo das empresas e receio dos funcionários
O estudo evidencia um hiato significativo na percepção sobre o futuro próximo. Cerca de 95 % dos empregadores entrevistados preveem crescimento dos seus negócios para este ano, enquanto apenas 51 % dos trabalhadores compartilham desse otimismo. Essa discrepância reforça a impressão de que os benefícios da IA podem ser apropriados primeiro pelas empresas, deixando parte da força de trabalho em situação de vulnerabilidade.
Quase metade dos profissionais consultados teme que os ganhos de produtividade favoreçam mais as organizações do que os colaboradores. O receio reside na possibilidade de cortes de postos ou na transformação de carreiras sem tempo hábil para requalificação.
Imagem: Tecnologia & Inovação
Formação contínua surge como fator decisivo
Especialistas em recursos humanos citados no documento apontam o aprendizado contínuo como o principal caminho para enfrentar o avanço da automação. Programas de reciclagem interna, cursos de curta duração e certificações em machine learning despontam como estratégias para manter a empregabilidade.
A Randstad observa que empresas que investem em upskilling e reskilling reduzem a rotatividade, preservam conhecimento institucional e mantêm equipes mais motivadas. Esse movimento, contudo, ainda não ocorre de forma uniforme nos 35 mercados analisados.
Impacto setorial e perspectivas
Serviços financeiros, comércio eletrónico e atendimento ao cliente figuram entre os segmentos com adoção mais acelerada de IA, resultado da alta disponibilidade de dados e da pressão por eficiência operacional. Indústrias que dependem de mão de obra altamente especializada, como saúde e engenharia, apresentam transição mais gradual, embora também integrem algoritmos às rotinas de diagnósticos ou design.
Mesmo com a aceleração da automação, o relatório indica que a maioria dos trabalhadores continua disposta a aprender novas competências e migrar para funções de maior valor agregado. Esse dado sugere que, apesar da ansiedade demonstrada, há espaço para adaptação desde que empresas e governos ofereçam apoio formativo.
Conclusões do levantamento
O Workmonitor 2024 confirma que a inteligência artificial já influencia decisões estratégicas em recrutamento e desenvolvimento de pessoas. Enquanto gestores projetam ganhos de produtividade, grande parte da força de trabalho, sobretudo os profissionais mais jovens, questiona se haverá redistribuição equilibrada dos benefícios gerados.
Para a Randstad, a solução passa pelo diálogo aberto entre empregadores e empregados, pela definição de políticas de formação contínua e por estratégias que conciliem inovação com segurança laboral. À medida que a IA se consolida, a capacidade de adaptação e a oferta de oportunidades de aprendizagem podem determinar quem prosperará no mercado de trabalho transformado.





