O esquema de distribuição ilegal de TV paga e streaming no Brasil deixou de ser improvisado e ganhou dimensão multinacional, com direito a departamentos de marketing, atendimento ao cliente e parcelamento no cartão de crédito. A avaliação é de Paulo Benelli, delegado de polícia e coordenador do Laboratório de Cibernética (Ciberlab) do Ministério da Justiça, que detalha a nova configuração desse mercado e os perigos para o consumidor.
Estrutura empresarial impulsiona pirataria de TV
Segundo Benelli, as quadrilhas abandonaram o antigo método de puxar cabos na rua. A atual operação envolve servidores localizados em outros países que espelham conteúdos de aplicativos legais, distribuição de TV Boxes sem homologação e campanhas publicitárias em redes sociais. “Hoje existe um setor de pagamentos, atendimento ao cliente que raramente resolve problemas e equipes dedicadas à propaganda desses dispositivos”, afirma o delegado.
O modelo empresarial permite escalar o negócio e alcançar clientes fora do Brasil. Além de vender assinaturas ilegais de IPTV, os grupos oferecem facilidades de pagamento, incluindo parcelamento, e criam perfis em plataformas digitais para atrair novos assinantes. Estimativas apontam faturamento de até R$ 1,5 milhão em alguns esquemas.
Risco de malware e perda repentina do serviço
A expansão tecnológica traz consequências diretas para quem contrata o serviço pirata. Estudos da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) identificam TV Boxes ilegais com malwares capazes de abrir brechas no roteador doméstico. A partir daí, invasores podem acessar dispositivos conectados à mesma rede e coletar dados pessoais.
As informações obtidas, alerta Benelli, alimentam outros crimes, como venda de bases de dados ou golpes financeiros. “Essas organizações não se limitam à violação de direitos autorais; também lucram com a comercialização de dados dos usuários”, explica.
Outro problema recorrente é a interrupção repentina da transmissão. Quando autoridades bloqueiam os servidores, o sinal cai sem reembolso ao cliente. O delegado lembra que muitos assinantes ficaram sem assistir à final da Copa Libertadores após uma operação contra um grande fornecedor de IPTV.
Brasil lidera ações de combate e cooperação externa
Para enfrentar redes cada vez mais sofisticadas, o combate à pirataria evoluiu. O Ciberlab atua como centro de inteligência, integrando rastreamento digital, operações conjuntas com polícias estaduais e federal e parcerias internacionais. A Operação 404, considerada a maior das Américas contra o gatonet, exemplifica essa abordagem integrada.
Imagem: Tecnologia Inovação Notícias
O método brasileiro chama a atenção de autoridades estrangeiras. Delegações do Reino Unido, dos Estados Unidos e da Argentina já buscaram o país para trocar conhecimento. O Federal Bureau of Investigation (FBI) participa de mesas redondas que discutem novas táticas para derrubar serviços ilegais hospedados fora do território nacional.
Além de pirataria, o Ciberlab monitora crimes de ódio e ameaças de atentados. Em 2025, a unidade colaborou com a Polícia Civil do Rio de Janeiro na operação Fake Monster, que impediu ataque planejado para um show da cantora Lady Gaga em Copacabana.
Orientação ao consumidor
Benelli ressalta que, além do risco de bloqueio do serviço e de exposição de dados, o uso de TV Boxes sem homologação viola a legislação brasileira de telecomunicações. Ele orienta consumidores a verificar a certificação da Anatel antes de adquirir qualquer equipamento de streaming e a optar por plataformas oficiais, que oferecem suporte técnico e garantem proteção contra malwares.
Enquanto a pirataria adota estratégias de empresa, as forças de segurança respondem com investigações digitais, cooperação global e operações de grande escala. O delegado reforça que a escolha do consumidor continua sendo determinante: “Se o IPTV pirata cair por ação policial, o usuário não terá a quem recorrer”.





