Roblox falha na verificação de idade e expõe chats infantis a adultos

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A ferramenta criada pelo Roblox para confirmar a idade dos utilizadores apresenta vulnerabilidades que permitem tanto a entrada de adultos em espaços destinados a menores quanto o acesso de crianças a áreas reservadas para adolescentes mais velhos.

Testes mostram brechas na checagem biométrica

Dois testes independentes evidenciaram falhas no sistema. No primeiro, uma criança de 12 anos, com autorização dos pais, abriu uma conta na plataforma e concluiu o reconhecimento facial exigido para usuários com menos de 13 anos. Em seguida, as credenciais foram repassadas a um repórter adulto, que conseguiu fazer login a partir de São Paulo sem qualquer nova verificação. O acesso ocorreu sem solicitação de código por telefone, e-mail ou nova captura biométrica — procedimentos comuns em apps que usam autenticação de dois fatores.

A experiência demonstra que, depois de concluída a verificação inicial, qualquer pessoa que obtenha o nome de utilizador e a palavra-passe de um menor pode ingressar em servidores infantis, contrariando o objetivo de separar faixas etárias no chat.

O segundo teste mostrou o caminho inverso. Um adolescente de 14 anos residente em Ilhéus (BA) criou uma conta e usou uma caneta esferográfica para desenhar barba e marcas de expressão. Com a luz do quarto parcialmente apagada, realizou a biometria facial. O sistema atribuiu a ele 17 anos, liberando recursos de chat destinados a utilizadores mais velhos.

Vídeos publicados em redes sociais replicam a mesma técnica: menores aplicam tinta no rosto antes de submeter a foto, burlando a inteligência artificial que estima a idade.

Regras da plataforma e insatisfação da comunidade

Pelas diretrizes oficiais, crianças com menos de nove anos estão impedidas de usar o chat sem consentimento dos responsáveis, enquanto menores de 13 anos precisam da autorização dos pais e da verificação facial para trocar mensagens. A empresa introduziu o novo sistema de moderação após sucessivas denúncias de abuso e aliciamento de jovens, mas a eficácia vem sendo questionada por utilizadores.

Provas desse descontentamento apareceram dentro do próprio jogo. Avatares incendiaram camiões virtuais e ergueram cartazes contra as alterações na verificação etária, pedindo a liberação irrestrita do chat. Parte dos protestos atribuiu as mudanças ao influenciador Felca, que em agosto do ano passado levou ao Congresso brasileiro relatos de pedofilia na plataforma.

Há debate sobre quem protagonizou as manifestações. Em fóruns internos, a maioria afirma que a movimentação foi conduzida por crianças. Segundo Luca Rocha, criador de conteúdo de 22 anos com mais de 234 mil seguidores no YouTube, o espaço onde ocorreram os protestos é um cenário de roleplay voltado “quase exclusivamente” a menores de 12 ou 13 anos.

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Imagem: Internet

Ações judiciais e histórico de denúncias

As fragilidades de segurança levaram a iniciativas legais fora do Brasil. Em agosto do ano passado, a procuradora-geral da Louisiana, Liz Murrill, processou o Roblox, acusando a empresa de favorecer predadores sexuais ao priorizar crescimento e lucro em detrimento da proteção infantil. O processo ganhou força depois do banimento do youtuber Andrew Schlep, que publicava vídeos sobre supostos aliciadores na plataforma e afirmou ter tido todas as contas encerradas por violar termos de uso.

Dentro do jogo, utilizadores reclamam que relatórios de abuso raramente resultam em penalidades efetivas. Rocha relata ter presenciado um homem com voz adulta interagir de forma possessiva com uma criança durante um mapa de parkour. Após ser avisado de que a conversa seria gravada, o suposto adulto saiu do servidor, mas, segundo o jogador, o perfil permaneceu ativo mesmo após a denúncia.

Roblox não se pronuncia sobre falhas

Procurada para comentar os testes e as queixas de vulnerabilidade, a empresa não respondeu até o momento. Com cerca de 70 milhões de utilizadores diários, o Roblox depende da confiança dos pais para expandir a base infantil, público que representa parte significativa das receitas obtidas com itens virtuais e assinaturas.

Enquanto a plataforma não detalha eventuais correções, especialistas em segurança digital recomendam que responsáveis acompanhem as atividades dos menores, ativem autenticação em duas etapas e fiscalizem os contactos adicionados no jogo.

A ausência de um segundo fator de autenticação e a facilidade para manipular imagens apontam que o modelo atual de verificação ainda não atende às exigências básicas de proteção de dados sensíveis, sobretudo quando envolve crianças.

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