Inteligência artificial domina Davos e reacende debate sobre criação de empregos

DAVOS, Suíça, 23 jan — A inteligência artificial esteve no centro das atenções na reunião anual do Fórum Económico Mundial, com executivos de grandes empresas a afirmarem que a tecnologia impulsionará a geração de postos de trabalho, apesar de persistirem dúvidas sobre possíveis cortes de pessoal.

Otimismo empresarial supera o ceticismo

O presidente-executivo da Nvidia, Jensen Huang, sintetizou o ambiente na estância alpina ao repetir o mote “empregos, empregos, empregos”. Segundo Huang, o desenvolvimento de infraestruturas, semicondutores e soluções de energia associadas à IA está a criar novas vagas em vários sectores.

Visão semelhante foi apresentada por Rob Thomas, diretor comercial da IBM. De acordo com o executivo, a automação promovida por sistemas inteligentes permitirá “otimizar tarefas e processos”, abrindo espaço para atividades de maior valor acrescentado.

Na mesma linha, Rob Goldstein, diretor de operações da BlackRock, declarou que a maior gestora de ativos do mundo captou quase 700 mil milhões de dólares em novos recursos líquidos no último ano e pretende aproveitar a IA para expandir negócios sem reduzir o quadro de funcionários. “Estamos focados em manter a equipa estável enquanto continuamos a crescer”, afirmou.

Para o cofundador da Microsoft, Bill Gates, as economias que adotarem sistemas inteligentes tornar-se-ão mais produtivas. O filantropo reconheceu a existência de desafios, mas considerou-os “solucionáveis” à medida que governos e empresas se preparem para a transição tecnológica.

Sindicalistas e analistas alertam para impactos laborais

Apesar do discurso otimista, representantes de trabalhadores demonstraram receio de que a automação avance sem diálogo social. Luc Triangle, secretário-geral da Confederação Sindical Internacional, afirmou que os empregados “veem a IA como uma ameaça” quando não participam nas decisões sobre a implementação de novas tecnologias.

A secretária-geral da UNI Global Union, Christy Hoffman, acrescentou que a IA é frequentemente apresentada como ferramenta de produtividade, conceito que pode significar “fazer mais com menos colaboradores”. A organização representa cerca de 20 milhões de trabalhadores em todo o mundo.

Estudo recente da PwC reforçou o clima de incerteza: apenas um em cada oito presidentes de empresas inquiridos declarou que a IA já está a reduzir custos e a gerar receita. Especialistas também questionaram qual modelo de negócios compensará os investimentos elevados na área.

Matthew Prince, presidente-executivo da Cloudflare, advertiu que agentes autónomos capazes de responder diretamente a consumidores podem reduzir a presença de pequenas e médias empresas, concentrando o mercado em plataformas que dominem a tecnologia.

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Imagem: Tecnologia & Inovação

Casos concretos de reestruturação

Embora várias lideranças tenham defendido a criação líquida de empregos, algumas empresas continuam a anunciar cortes. Segundo fontes ouvidas pela Reuters, a Amazon prepara uma segunda ronda de demissões, parte de um plano que abrange cerca de 30 mil postos corporativos.

Do lado oposto, segmentos ligados ao hardware registam procura crescente por mão de obra, impulsionada pela corrida por capacidade de processamento. “O sector de chips está a contratar intensamente”, frisou Huang, da Nvidia, indicando que a procura por semicondutores especializados em IA aumenta a cada trimestre.

Desafios éticos e de saúde mental em debate

A par das questões laborais, participantes discutiram riscos associados à utilização de chatbots. Delegados destacaram relatos de utilizadores expostos a conteúdos que podem agravar quadros de ansiedade ou depressão, sublinhando a necessidade de mecanismos de proteção eficazes.

Os debates incluíram propostas de regulamentação para garantir transparência algorítmica e avaliação de impactos sociais antes da adoção em larga escala. Consenso emergente aponta para cooperação entre governos, empresas e sociedade civil na definição de parâmetros éticos.

Perspetivas para 2024

Apesar das divergências, a maioria dos presentes em Davos concordou que a IA continuará a ocupar posição central nas agendas corporativas e governamentais ao longo de 2024. A velocidade da adoção dependerá de fatores como custos de infraestrutura, disponibilidade de talentos e regulamentação.

Para os executivos, o principal desafio passa por demonstrar que as promessas de inovação se traduzirão em benefícios tangíveis para a força de trabalho. Já sindicatos e especialistas insistem na inclusão de trabalhadores nas conversações sobre transformação digital, visando mitigar riscos de desigualdade.

Com o tema longe de consenso, a próxima edição do Fórum Económico Mundial deverá voltar a discutir o equilíbrio entre avanços tecnológicos e proteção laboral, consolidando a IA como assunto prioritário nos fóruns internacionais.

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