Lula acusa Trump de tentar criar “nova ONU” com Conselho de Paz

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta sexta-feira, 23 de janeiro de 2026, que a proposta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de formar um Conselho de Paz representa a criação de uma “nova Organização das Nações Unidas” sob controle norte-americano. A declaração foi dada no encerramento do 14.º Encontro Nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em Salvador.

Crítica ao unilateralismo e convite norte-americano

Lula avaliou que o cenário internacional atravessa um “momento crítico”, marcado pelo enfraquecimento do multilateralismo e pela adoção de políticas unilaterais. Segundo o chefe do Executivo brasileiro, a Carta da ONU está “sendo rasgada” porque prevalece “a lei do mais forte”. Nesse contexto, classificou o novo Conselho de Paz — anunciado por Trump como órgão responsável por supervisionar o futuro Comitê Nacional para a Administração de Gaza (NCAG) — como uma estrutura destinada a substituir a ONU.

O presidente brasileiro revelou ter sido convidado a integrar o Conselho. Apesar disso, contestou o desenho da iniciativa. “Em vez de reformar a ONU, o presidente Trump quer montar uma organização na qual ele seja o dono”, criticou, recordando que o Brasil defende, desde 2003, a ampliação do Conselho de Segurança para incluir países como Brasil, México e nações africanas.

Contatos com líderes globais

Diante da proposta norte-americana, Lula informou que iniciou telefonemas a vários chefes de Estado para discutir alternativas multilaterais. De acordo com ele, já houve conversas ou tentativas de diálogo com o presidente da China, Xi Jinping; o presidente da Rússia, Vladimir Putin; o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi; e a presidente do México, Claudia Sheinbaum.

O mandatário declarou buscar “uma forma de impedir que o multilateralismo seja jogado ao chão” e de assegurar que decisões internacionais deixem de depender do poder bélico de qualquer país. “Queremos fazer política com o poder do convencimento, não com armas”, resumiu.

Denúncia de intervenção na Venezuela

No mesmo discurso, Lula voltou a condenar a intervenção norte-americana na Venezuela, que resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama, deputada Cilia Flores. Para ele, o episódio demonstra desrespeito à integridade territorial e reforça a necessidade de diálogo. “A América do Sul é um território de paz; não temos bomba atômica”, pontuou.

O presidente também criticou declarações recorrentes de Trump sobre o poder militar dos Estados Unidos, alegando que a prática alimenta a intolerância. “Não queremos nova Guerra Fria nem outro conflito como o de Gaza”, acrescentou.

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Encerramento do 14.º Encontro do MST

O evento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra reuniu mais de três mil delegados de todas as regiões do país entre 19 e 23 de janeiro. Os participantes discutiram reforma agrária, produção de alimentos saudáveis, agroecologia, agricultura familiar e conjuntura política. Autoridades, parlamentares e representantes de organizações sociais acompanharam o ato que celebrou os 42 anos do movimento.

Ao final, o MST entregou uma carta a Lula. O documento condena ações que, segundo o movimento, visam “impedir o avanço do multilateralismo” e promover o saque de recursos naturais como petróleo, minérios e terras raras. A carta reafirma a defesa da reforma agrária, do socialismo, da luta anti-imperialista e da solidariedade a povos como Venezuela, Palestina, Haiti e Cuba.

O movimento convocou a sociedade brasileira a lutar por melhores condições de vida, proteção ambiental e soberania. Entre as pautas elencadas estão o enfrentamento a bases militares estrangeiras, a rejeição a agrotóxicos e o apoio à chamada Reforma Agrária Popular.

Posicionamento brasileiro

Lula concluiu o discurso reiterando que o Brasil mantém relações abertas com todas as nações, mas não aceitará “voltar a ser colônia”. O presidente reafirmou a preferência por soluções diplomáticas, ressaltando que guerra armada não faz parte da agenda brasileira. “Queremos compartilhar o que temos de bom e construir a paz pelo diálogo”, finalizou.

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