O TikTok continuará a funcionar nos Estados Unidos após a formação de um consórcio de investidores norte-americanos que assumirá a operação local da plataforma. O arranjo encerra o risco de bloqueio que se arrastava desde 2020, quando o então presidente Donald Trump apontou supostas ameaças à segurança nacional. A nova estrutura mantém o aplicativo disponível para os utilizadores norte-americanos e cumpre as exigências legais aprovadas durante o governo de Joe Biden.
Composição acionária definida
O acordo estabelece que 80,1 % do capital da nova empresa ficará nas mãos de investidores dos Estados Unidos. A distribuição divulgada é a seguinte:
• 45 % para um grupo liderado por Oracle, Silver Lake e MGX;
• 35 % para outros investidores norte-americanos, entre eles o empresário Michael Dell;
• 19,9 % para a ByteDance, controladora chinesa do TikTok, percentual que respeita o limite de 20 % imposto pela legislação norte-americana.
A ByteDance permanece acionista minoritária, mas deixa de gerir a operação dentro do território dos Estados Unidos. A gestão executiva e o conselho de administração passam a ser majoritariamente formados por cidadãos norte-americanos, requisito previsto na lei que condicionou a continuidade do aplicativo no país.
Algoritmo isolado pela legislação chinesa
O ponto central das negociações foi o algoritmo de recomendação, considerado o principal ativo tecnológico do TikTok. A legislação chinesa proíbe a exportação definitiva de sistemas de recomendação sem autorização estatal, razão pela qual não ocorreu uma venda integral da tecnologia.
O compromisso adotado foi o licenciamento: a ByteDance continuará proprietária intelectual do código-fonte global, porém autoriza a nova empresa sediada nos Estados Unidos a operar uma versão própria. Essa cópia ficará isolada do sistema mundial e será treinada exclusivamente com dados de utilizadores norte-americanos.
Na prática, o algoritmo norte-americano funcionará de forma independente. Sem acesso aos padrões de uso de outras regiões, analistas do setor preveem diferenças de desempenho e de capacidade de personalização em relação à versão internacional. Já a ByteDance mantém a evolução do algoritmo global, que atende a mercados fora dos Estados Unidos.
Interferência política determinante
O processo começou em 2020, quando Donald Trump tentou proibir o TikTok, alegando riscos de espionagem. A medida não foi adiante, mas o debate levou o Congresso norte-americano a aprovar, durante o mandato de Joe Biden, uma lei que obrigava a venda ou o bloqueio total do serviço.
Imagem: Tecnologia e Inovação
Em campanha para retornar à Casa Branca, Trump mudou de posição e prometeu preservar o acesso ao aplicativo. Já no início de 2025, de volta ao cargo, atuou pessoalmente para articular o consórcio que agora assume a operação local. O desenlace ocorreu após meses de negociações envolvendo representantes da Casa Branca, reguladores e executivos de tecnologia.
Impacto económico e possíveis precedentes
A permanência do TikTok evita perdas estimadas para milhares de criadores de conteúdo norte-americanos que dependem da plataforma como fonte de rendimento. Publicitários e empresas que utilizam o aplicativo em estratégias de marketing também deixam de enfrentar um cenário de incerteza.
O desfecho reforça o conceito de “soberania digital”, no qual governos buscam controlar dados de cidadãos e o funcionamento de algoritmos dentro de suas fronteiras. Especialistas em regulação tecnológica observam que a solução adotada pelos Estados Unidos pode servir de referência para outros países que pretendem limitar a atuação de empresas estrangeiras de tecnologia.
Com lucro líquido superior a 40 mil milhões de dólares, a ByteDance vê o acordo como oportunidade para focar em expansão global e desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial para novos mercados. Ao mesmo tempo, mantém participação num dos maiores polos de publicidade digital do mundo, sem abrir mão do núcleo estratégico do seu algoritmo.
Ao atender às exigências legislativas norte-americanas e respeitar as restrições impostas pela China, o arranjo cria um modelo de gestão fragmentado. A forma como essa divisão afetará o crescimento da plataforma e o ecossistema global de redes sociais será monitorada pelos principais players do setor de tecnologia e por reguladores internacionais.





