O laboratório de ciberinteligência do Ministério da Justiça, conhecido como Ciberlab, ampliou a sua atuação em duas frentes consideradas críticas: a prevenção de atentados planeados na internet e o combate às redes de pirataria de conteúdos audiovisuais. Coordenado pelo delegado Paulo Benelli, o órgão reúne policiais e analistas que monitoram, em tempo real, discursos de ódio, ameaças contra a vida e infrações relacionadas a direitos autorais.
Centro de inteligência evita ataque em concerto de Lady Gaga
Um dos casos mais emblemáticos envolveu a operação Fake Monster, executada em julho de 2025. O Ciberlab recebeu, de forma proativa, relatórios de quatro grandes plataformas digitais sobre conversas que mencionavam a utilização de coquetéis molotov durante um concerto de Lady Gaga em Copacabana. O evento, parte da “Mayhem Ball Tour”, atraiu cerca de 2,1 milhões de pessoas, segundo a prefeitura do Rio de Janeiro.
Após o alerta, a equipa de inteligência cruzou dados dos utilizadores com informações de provedores de internet e localizou os suspeitos em poucas horas. A Polícia Civil fluminense conduziu as detenções, apreendendo materiais que poderiam ser usados na ação. De acordo com Benelli, a cooperação das empresas foi decisiva: “Quando envolve risco iminente à vida, as plataformas enviam dados em regime de urgência, permitindo rastreio rápido e encaminhamento às polícias.”
O delegado ressalta que o laboratório não realiza inquéritos; a sua função é fornecer inteligência. “Recebemos o conteúdo suspeito, identificamos os perfis e repassamos à autoridade competente. Em situações de ameaça imediata, não há fins de semana nem feriados para a nossa equipa”, afirmou.
Pirataria de TV paga vira multinacional e entra na mira das autoridades
Além da prevenção a atentados, o Ciberlab lidera investigações contra serviços ilegais de IPTV e TV Box. Benelli descreve um cenário no qual o antigo “gatonet” evoluiu para um negócio global, com servidores fora do país, atendimento ao cliente, parcelamento no cartão e campanhas de marketing em redes sociais. “Hoje os grupos adotam estrutura empresarial para fraudar direitos de propriedade intelectual e enganar o consumidor”, explicou.
Segundo o delegado, esses serviços prometem mensalidades baixas, mas podem falhar subitamente quando a polícia derruba os servidores. Um exemplo ocorreu durante a final da Copa Libertadores, quando milhares de utilizadores ficaram sem acesso à transmissão após uma operação conjunta do Ministério da Justiça e polícias civis.
Imagem: Tecnologia Inovação Notícias
A repressão à pirataria conta com a Operação 404, considerada a maior das Américas nesse segmento. A iniciativa reúne Ciberlab, autoridades estaduais e representantes da indústria audiovisual. As fases da operação incluem mandados de busca, bloqueio de domínios, remoção de aplicativos ilegais e congelamento de ativos financeiros.
Modelo brasileiro inspira cooperação internacional
O método de articulação entre governo, forças de segurança e empresas privadas transformou o Brasil em referência global. Delegações do Reino Unido, dos Estados Unidos e de países vizinhos, como Argentina e Paraguai, visitam o país para conhecer as estratégias adotadas. O Federal Bureau of Investigation (FBI) participa de mesas redondas anuais que discutem formas de agilizar pedidos de dados e alinhar práticas de combate à criminalidade digital.
Em 2023, a derrubada do serviço pirata My Family, sediado na Argentina, contou com intercâmbio de informações fornecidas pelo Ciberlab. A experiência evidenciou, segundo Benelli, a importância de um fluxo rápido de dados entre plataformas, provedores e polícias de diferentes jurisdições.
O coordenador enfatiza que o objetivo principal é salvar vidas e proteger o cidadão. “Já localizámos mapas de escolas, cartas suicidas e materiais de propaganda extremista antes de serem usados. Quando a polícia informa que evitámos uma tragédia, isso não tem preço”, concluiu.





