Faixa rica em ferro atravessa Nebulosa do Anel e intriga astrônomos

Astrônomos identificaram uma faixa estreita e altamente concentrada em ferro cruzando o centro da Nebulosa do Anel, um dos objetos celestes mais observados do céu noturno. A descoberta foi obtida durante testes de um novo equipamento instalado no telescópio William Herschel, nas Ilhas Canárias, e publicada na revista Monthly Notices of the Royal Astronomical Society.

Instrumento mapeia a nebulosa ponto a ponto

O achado decorre do funcionamento de um espectrógrafo capaz de examinar a composição do gás em cada ponto da nebulosa, em vez de coletar dados apenas em faixas recortadas. Esse método integral permitiu rastrear elementos químicos com resolução sem precedentes e revelou a presença da chamada “barra de ferro”. A estrutura não é sólida: trata-se de uma região em que o ferro aquecido se encontra muito mais concentrado que o habitual.

Segundo a equipa responsável, nenhum outro elemento mostrou distribuição semelhante na área analisada. Hidrogênio e hélio, gases dominantes em nebulosas planetárias, mantêm o padrão difuso característico dessas formações. A singularidade do traço metálico, portanto, atraiu a atenção dos cientistas e levantou questões sobre processos físicos ainda não explicados.

Por que a faixa surpreende pesquisadores

Nebulosas planetárias se formam quando estrelas de massa comparável à do Sol ejetam suas camadas externas na fase final de vida. O material expulso se espalha gradualmente, gerando estruturas gasosas amplas, compostas sobretudo por elementos leves. O ferro, por sua vez, encontra-se em quantidade menor e costuma aparecer distribuído de maneira homogênea, sem delimitações claras.

A Nebulosa do Anel, localizada a cerca de 2.300 anos-luz da Terra, foi catalogada no século XVIII e figura entre os alvos mais fotografados da astronomia. O volume de dados acumulado ao longo de décadas sugeria que dificilmente restariam formações inéditas em seu interior. A identificação de uma concentração de ferro bem definida contraria essa expectativa e evidencia a importância de técnicas de mapeamento completas, capazes de cobrir toda a área visível do objeto.

Para dimensionar a descoberta, os autores do estudo lembram que a nebulosa apresenta diâmetro comparável ao do Sistema Solar interno. A faixa metálica, embora estreita, atravessa a região central desse conjunto, indicando um fenômeno localizado, mas de escala considerável.

Informações ainda em aberto

Até o momento, não há indícios de choques violentos, jatos estelares ou temperaturas extremas que justifiquem a libertação concentrada de ferro. Os dados coletados também não esclarecem se a faixa se encontra mais próxima da periferia ou do núcleo da nebulosa, nem revelam há quanto tempo a estrutura se formou.

Faixa rica em ferro atravessa Nebulosa do Anel e intriga astrônomos - Tecnologia Inovação Notícias

Imagem: Tecnologia Inovação Notícias

Os responsáveis pelo estudo planeiam novas observações com instrumentos de maior sensibilidade, inclusive no infravermelho, para medir temperatura, densidade e velocidade do gás ao longo da faixa. A análise deverá ajudar a verificar se a concentração metálica resulta de processos internos, como interações entre camadas ejetadas em épocas diferentes, ou de encontros externos, por exemplo, com nuvens de material interestelar.

Relevância do espectrógrafo de campo integral

O espectrógrafo utilizado no telescópio William Herschel pertence a uma classe de instrumentos conhecida como campo integral, capaz de gerar cubos de dados em três dimensões (duas espaciais e uma espectral). Nesse formato, cada pixel da imagem possui um espectro completo, permitindo determinar a abundância de vários elementos químicos simultaneamente.

Em estudos anteriores, os investigadores analisavam apenas secções estreitas da Nebulosa do Anel. Caso o corte não atravessasse a região exata da concentração de ferro, a anomalia permaneceria invisível. O novo mapeamento, ao cobrir todo o objeto de uma só vez, reduziu o risco de perder formações localizadas e abriu caminho para revisões em outros alvos históricos da astronomia.

Próximos passos

Além de explicar a origem da faixa de ferro, os cientistas pretendem avaliar se fenômenos semelhantes ocorrem noutras nebulosas planetárias. A confirmação de casos adicionais apontaria para um mecanismo físico comum e hoje negligenciado. Por outro lado, a ausência de estruturas equivalentes reforçaria o caráter singular do achado na Nebulosa do Anel.

Independentemente do desfecho, a descoberta demonstra que tecnologias de detecção mais avançadas ainda conseguem revelar detalhes inéditos em objetos já exaustivamente estudados. A aplicação sistemática desses recursos pode, segundo os autores, reescrever parte do conhecimento a respeito da evolução estelar e da distribuição de elementos pesados no meio interestelar.

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