Pelo menos oito pessoas continuam hospitalizadas no Distrito Federal após a descarga elétrica que atingiu participantes de um ato liderado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) na Praça do Cruzeiro, em Brasília, na manhã de domingo (26). A manifestação marcou o encerramento de uma caminhada iniciada seis dias antes em defesa da anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Dois hospitais concentram pacientes em observação
De acordo com o Corpo de Bombeiros do Distrito Federal, o incidente provocou 89 vítimas, das quais 47 receberam atendimento inicial em unidades de pronto-atendimento. Os casos mais graves foram distribuídos entre o Hospital Regional da Asa Norte (HRAN) e o Hospital de Base do Distrito Federal.
Em nota, a Secretaria de Saúde informou que três pacientes permanecem no HRAN, enquanto um quarto ferido precisou de transferência para a UTI do Hospital Santa Marta para monitorização intensiva. Já o Instituto de Gestão Estratégica de Saúde (Iges-DF), responsável pelo Hospital de Base, relatou quatro pessoas em observação com expectativa de alta nas próximas horas, caso o quadro clínico se mantenha estável.
Os feridos apresentam queimaduras, taquicardia, hipotermia e lesões por torção. Entre os sintomas relatados no momento da admissão hospitalar estão calafrios persistentes, mesmo após estabilização da temperatura corporal. Segundo as equipes médicas, nenhuma vítima corre risco de morte.
Testemunhas descrevem choque e confusão
O auxiliar de manutenção Cleodemiro Tolentino Porto, 45 anos, relatou ter sentido uma forte corrente elétrica no momento da descarga. “Senti o choque, mas consegui permanecer de pé. Muita gente caiu no chão e foi socorrida por quem estava ao lado”, contou ao deixar o local sem necessidade de internação.
O casal Sabrina e Renato Gadea, que viajou de Guarulhos (SP) para participar do ato, segurava uma lona para se proteger da chuva quando ouviu o estrondo. Sabrina permaneceu consciente, mas Renato disse ter desmaiado por alguns segundos. “Acordei sentado no chão e percebi pessoas ao meu redor tentando se levantar. O socorro demorou porque os bombeiros estavam posicionados longe da área onde o raio caiu”, afirmou. Ele recebeu alta do Hospital de Base na noite de domingo (25).
Segundo registros da corporação, a tempestade avançou rapidamente sobre a Esplanada dos Ministérios e áreas adjacentes, aumentando o risco de descargas atmosféricas. O Instituto Nacional de Meteorologia havia emitido alerta de tempestade com raios para a região horas antes do evento.
Imagem: Internet
Contexto do ato político
A “Caminhada pela Liberdade” começou em 19 de janeiro e percorreu 190 quilômetros até chegar à capital federal. O objetivo declarado era pressionar o Supremo Tribunal Federal pela anistia de Bolsonaro, condenado a 27 anos e três meses de prisão pelo crime de tentativa de golpe de Estado. No encerramento, apenas Nikolas Ferreira discursou; o pastor Silas Malafaia, aguardado para a cerimónia, não compareceu.
Após o incidente, o parlamentar visitou o Hospital de Base, onde posou para fotografias com alguns feridos. Mais tarde, compartilhou nas redes sociais um vídeo do religioso Lamartine Posella que atribui o episódio à “vontade divina”. A postagem gerou repercussão, mas não alterou o cronograma de alta dos pacientes.
O Corpo de Bombeiros abriu procedimento interno para avaliar o posicionamento das equipes durante o evento e o tempo de resposta após a ocorrência. A análise também examinará se houve falhas na orientação ao público sobre os riscos de permanecer em área aberta durante tempestade.
Até a noite de segunda-feira (27), não houve registro de novos internamentos relacionados ao mesmo episódio, e as autoridades de saúde mantinham acompanhamento diário dos oito pacientes remanescentes. A previsão é de que todos deixem o hospital nos próximos dias, condicionados à evolução clínica e a exames cardiológicos de rotina para vítimas de raio.





