As “dark factories” ganham espaço na indústria automotiva chinesa ao substituir quase todas as funções humanas por sistemas robotizados e inteligência artificial, permitindo a fabricação de veículos em regime contínuo, sem necessidade de iluminação nem pausas operacionais.
Produção ininterrupta com autonomia elevada
Nessas unidades, robôs executam tarefas de montagem anteriormente atribuídas a operários, como soldagem, pintura e instalação de componentes estruturais. A operação automática mantém as linhas ativas 24 horas por dia, sete dias por semana, com o objetivo de reduzir custos, padronizar a qualidade e acelerar a entrega ao consumidor final.
Segundo o USA Today, o nível de automação chegou a um ponto em que a intervenção humana se limita a atividades pontuais, principalmente manutenção das máquinas e processos que ainda exigem maior precisão manual. Um exemplo é a montagem dos cabos que percorrem todo o veículo, etapa que, por enquanto, continua nas mãos de técnicos especializados.
Dados da IBM confirmam que o setor automotivo representa o maior utilizador de robôs industriais no mundo. A tendência reflete a estratégia de fabricantes que desejam elevar a eficiência, reduzir falhas e, simultaneamente, contornar pressões de custos trabalhistas.
Zeekr lidera expansão robotizada
A montadora chinesa de veículos elétricos Zeekr ilustra a adoção avançada desse modelo. A empresa opera com 820 robôs na principal linha de produção e planeia expandir esse contingente para atender novas metas. De acordo com o The Wall Street Journal, a capacidade atual da planta chega a 300 000 automóveis por ano, o que equivale a mais de 800 unidades diárias.
Para efeitos de comparação, a Tesla precisou de mais de uma década para alcançar volume semelhante, embora também tenha investido fortemente em automação. A diferença de ritmo evidencia a aposta chinesa em pular etapas e implementar, desde o início, sistemas totalmente integrados de robótica e inteligência artificial.
Mesmo com processos já amplamente automatizados, a Zeekr mantém a meta de elevar o nível de autonomia. A ambição declarada é reduzir ainda mais o tempo entre a produção e a entrega, reforçando a competitividade no mercado global de veículos elétricos.
Impacto sobre empregos e concorrência internacional
A disseminação das fábricas escuras na China pode influenciar estratégias de produção em outros países. Analistas ouvidos pelo USA Today apontam que montadoras norte-americanas podem sentir pressão para adotar graus semelhantes de automação a fim de manter margens e prazos de entrega.
Imagem: NewsUp Brasil
O cenário gera preocupações em relação ao emprego. Em 2024, a indústria automotiva dos Estados Unidos contabilizava cerca de 308 000 trabalhadores. A introdução massiva de robôs poderia afetar parte desses postos caso as empresas optem por linhas de montagem quase totalmente automatizadas. Apesar desse risco, especialistas lembram que o setor norte-americano nem sempre segue as mesmas tendências globais, o que pode suavizar mudanças imediatas.
Atualmente, a China já apresenta mais robôs industriais por 10 000 funcionários que os Estados Unidos, indicador que reforça a liderança do país asiático na transformação digital das plantas fabris. Grandes grupos internacionais, como Tesla e Hyundai, também caminham nessa direção, embora com níveis de automação variados conforme a localização das fábricas.
Desafios e próximos passos
A adoção de fábricas escuras envolve investimentos elevados em robótica, sensores, sistemas de visão computacional e plataformas de inteligência artificial. Além disso, exige mão de obra qualificada para programar, calibrar e manter os equipamentos, abrindo espaço para novos perfis profissionais, mesmo que em menor número absoluto.
Questões de segurança, ciberproteção e sustentabilidade entram na lista de desafios. A operação contínua demanda fornecimento de energia estável e planos de contingência para falhas inesperadas. Ao mesmo tempo, a ausência de iluminação e climatização para pessoas pode diminuir o consumo energético, equilibrando parte dos custos adicionais com infraestrutura tecnológica.
Enquanto fabricantes chinesas aperfeiçoam linhas de produção com baixos níveis de intervenção humana, concorrentes globais acompanham o movimento para avaliar impactos. A velocidade de adoção em cada região dependerá de fatores como legislação trabalhista, incentivos governamentais, custo de financiamento e acesso a fornecedores de tecnologia.
Com ganhos significativos de produtividade e tempo de ciclo, as “dark factories” tendem a tornar-se elemento central na estratégia industrial de quem busca liderar o mercado de veículos elétricos e outros segmentos de alto volume. A forma como cada país equilibra automação, emprego e competitividade definirá o próximo capítulo dessa transformação.





