Cruzamento de pragas no Brasil amplia resistência a pesticidas e preocupa agricultura mundial

Duas pragas agrícolas entre as mais destrutivas do planeta cruzaram-se no Brasil e partilharam genes que lhes conferem resistência a diferentes pesticidas, revelam análises genéticas realizadas na última década. A lagarta-da-espiga-do-milho (Helicoverpa zea) e a lagarta-da-maçã-do-algodoeiro (Helicoverpa armigera) formaram populações híbridas capazes de contornar tanto a toxina Bt, presente em variedades transgênicas de milho e soja, quanto inseticidas piretroides aplicados em lavouras convencionais.

Troca de genes acelera resistência

Investigadores da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ-USP) sequenciaram o genoma de quase mil exemplares das duas espécies coletados em várias regiões brasileiras entre 2013 e 2023. Os resultados indicam que um terço dos indivíduos de H. armigera já carrega segmentos genéticos herdados de H. zea responsáveis pela resistência à proteína Bt. Em sentido inverso, quase todas as amostras brasileiras de H. zea possuem agora um gene oriundo de H. armigera que protege contra piretroides.

Até poucos anos atrás acreditava-se que as duas espécies não se cruzavam. Essa barreira reprodutiva, porém, foi superada depois que H. armigera, comum na Europa e na Ásia, foi identificada no Brasil em 2013. O encontro das duas pragas em áreas agrícolas extensivas favoreceu o acasalamento e a troca de material genético, acelerando a evolução de linhagens capazes de sobreviver a vários métodos de controle.

Ameaça para soja, milho e outras culturas

No Brasil, mais de 90% da soja plantada contém genes da bactéria Bacillus thuringiensis (Bt), que induzem a produção de proteínas tóxicas para insetos. A tecnologia reduziu perdas causadas por pragas como H. zea, cuja fase larval se alimenta de folhas, espigas e vagens. No entanto, a resistência agora transferida amplia o risco de danos expressivos não só à soja, mas também ao milho, tomate, batata, pepino, berinjela e algodão, culturas que compõem o cardápio dessas lagartas.

O cenário preocupa pesquisadores porque a velocidade de disseminação dos genes de resistência foi considerada elevada. Espécies que antes tinham comportamentos alimentares ligeiramente distintos podem, a partir do hibridismo, explorar uma gama maior de plantas hospedeiras com menor mortalidade, elevando o potencial de perda de produtividade e de custos extras para o produtor.

Desenvolvimento de novas variedades e manejo integrado

Indústrias de biotecnologia já criam sementes Bt que expressam duas, três ou até cinco proteínas diferentes na tentativa de contornar a resistência atual e tornar mais difícil a adaptação dos insetos. Contudo, o ciclo de pesquisa, aprovação regulatória e comercialização dessas cultivares é caro e demorado, podendo ultrapassar uma década.

Especialistas defendem estratégias de manejo integrado de pragas para prolongar a eficácia das tecnologias existentes. Uma das principais recomendações é o plantio de áreas de refúgio, onde culturas não transgênicas são cultivadas ao lado das transgênicas para manter populações sensíveis às toxinas. Esse método reduz a pressão evolutiva sobre as pragas, retardando o surgimento e a propagação de variantes resistentes. Apesar de obrigatório em alguns países, o cumprimento das regras de refúgio ainda é limitado em várias regiões.

Cruzamento de pragas no Brasil amplia resistência a pesticidas e preocupa agricultura mundial - Tecnologia & Inovação

Imagem: Tecnologia & Inovação

Consequências globais

Embora a hibridização tenha sido documentada no Brasil, as duas espécies apresentam amplo alcance geográfico. H. zea é nativa das Américas e H. armigera já se encontra em todos os continentes agrícolas relevantes. A combinação de genes resistentes pode, portanto, espalhar-se rapidamente por rotas migratórias naturais ou pelo transporte de produtos agrícolas. Cientistas alertam que a segurança alimentar mundial pode ser afetada caso não sejam adotadas medidas coordenadas para monitorar e conter as novas populações híbridas.

Além da troca de material genético entre espécies, pesquisas anteriores mostraram que cepas de H. armigera desenvolveram resistência à Bt de forma independente em outros países. Isso indica que a evolução dentro de cada espécie continua a ser um fator crucial. A hibridização, entretanto, oferece um atalho, permitindo que características vantajosas cruzem rapidamente fronteiras biológicas.

Próximos passos na pesquisa

Os autores do estudo recomendam ampliar a vigilância genômica das pragas em diferentes regiões agrícolas, bem como avaliar o desempenho das variedades Bt disponíveis diante das populações híbridas. Os resultados devem orientar políticas de manejo e definir prioridades para o desenvolvimento de novos defensivos ou variedades transgênicas.

Para os produtores, a orientação imediata é diversificar métodos de controle, reduzir o uso indiscriminado de inseticidas e respeitar as faixas de refúgio. Caso contrário, a resistência tende a consolidar-se, elevando custos de produção e afetando a oferta de alimentos a nível mundial.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *