Um ano depois de o aplicativo chinês DeepSeek surpreender o Vale do Silício ao igualar, por uma fração do custo, o desempenho de grandes modelos de linguagem norte-americanos, a disputa tecnológica entre Estados Unidos e China ganhou novos contornos. Washington mantém a liderança em semicondutores avançados, enquanto Pequim aposta em ferramentas de código aberto e na aplicação prática da inteligência artificial em robótica, manufatura e serviços públicos.
Controle de chips garante vantagem norte-americana
A supremacia dos EUA em poder computacional repousa na produção de chips de última geração da Nvidia. A série H100, referência para treinar modelos de ponta, continua fora do alcance dos fabricantes chineses. A Huawei, por exemplo, produz a família Ascend 910, que atinge cerca de 60 % da performance do H100 em tarefas de geração de texto e classificação de imagens, mas ainda fica aquém nos processos de treinamento e escala produtiva.
Em dezembro de 2025, o governo norte-americano autorizou a venda do chip H200 a compradores chineses selecionados em troca de uma fatia das receitas. A medida manteve bloqueados os processadores Blackwell e Rubin, mais recentes. Alibaba, Tencent e ByteDance encomendaram mais de dois milhões de unidades do H200, avaliadas em cerca de US$ 50 milhões de dólares. Contudo, a alfândega chinesa recebeu orientação para reter o produto, e não há prazo oficial para liberação.
Os controles reforçam a estratégia delineada no plano “Vencendo a corrida: Plano de Ação de IA dos EUA”. O documento, divulgado após o lançamento do DeepSeek, defende remover barreiras regulatórias, exportar tecnologias a aliados e impedir que “rivais estratégicos” tornem parceiros dependentes de hardware estrangeiro adversário.
Modelos open weight impulsionam o ecossistema chinês
Diante da limitação de chips avançados, empresas chinesas priorizam modelos abertos que reduzem custos de desenvolvimento. DeepSeek, Moonshot AI e Qwen são exemplos de ferramentas cuja base de parâmetros — os chamados weights — é pública, permitindo ajuste rápido para tarefas específicas.
A família Qwen, criada pelo Alibaba, tornou-se o modelo de código aberto mais baixado do mundo, com cerca de 700 milhões de downloads na plataforma norte-americana Hugging Face, superando a linha LLaMA, da Meta. Desde então, o Alibaba disponibilizou o código de quase 400 versões do Qwen, que originaram mais de 180 mil derivados.
O foco em abertura também se reflete no “Plano de Ação Global de Governança de IA” apresentado por Pequim. O documento defende um ecossistema “diversificado, aberto e inovador”, com participação de múltiplas partes interessadas e promoção de diálogo internacional. Analistas, como Scott Singer, da Carnegie Endowment, avaliam que a retórica chinesa contrasta com a ênfase norte-americana em dominância, posicionando o país como defensor de soluções multilaterais.
Nos Estados Unidos, o Centro Nacional de Padrões e Inovação em IA reconheceu a importância de modelos abertos “alinhados a valores americanos”, mas alertou para riscos de segurança e censura associados a ferramentas populares da China, como o DeepSeek.
Robótica e “AI Plus” dominam a agenda até 2035
A partir do êxito dos modelos de linguagem, o governo chinês expandiu a ambição para incorporar IA em setores produtivos. O programa “AI Plus”, previsto para avançar em 2026, estabelece metas de integração em indústria, saúde, serviços e gestão pública. O objetivo é alcançar, até 2035, uma sociedade “totalmente impulsionada por IA”.
Imagem: Tecnologia Inovação Notícias
Segundo Singer, enquanto empresas norte-americanas concentram recursos na ampliação de capacidades de software e automação de tarefas digitais, a China direciona investimentos para robótica inteligente. Pequim vê a combinação de IA e máquinas físicas como resposta a desafios econômicos, entre eles o desemprego juvenil e a fraca demanda interna.
No campo da governança, especialistas como Xiaomeng Lu, do Eurasia Group, apontam para um cenário de liderança segmentada. Os EUA devem preservar a vantagem em semicondutores, ao passo que a China tende a superar rivais em certos domínios de implementação prática e em tratamentos regulatórios específicos.
Restrições energéticas e prazos de construção de novos centros de dados condicionam o ritmo de evolução dos modelos globais. Num quadro de prioridades divergentes, analistas consideram provável que cada país consolide nichos de excelência em vez de buscar hegemonia completa.
Discursos recentes do presidente Xi Jinping reforçam a narrativa de progresso nacional. Em mensagem de Ano-Novo, ele destacou “novos patamares” da tecnologia chinesa, citando a corrida entre grandes modelos e “avanços significativos” na produção interna de chips.
Mesmo com gargalos no hardware, a combinação de modelos abertos, incentivos estatais e apostas em robótica mantém o ímpeto de inovação na China. Nos Estados Unidos, a confiança na escalabilidade dos chips Nvidia sustenta a visão de que a expansão contínua dos modelos base transformará a economia e consolidará vantagens geopolíticas.
Até 2026, a disputa deve permanecer marcada por controles de exportação, movimentos em favor do código aberto e estratégias distintas de aplicação. A busca por liderança total cede espaço a um mosaico de competidores especializados, em que cada lado explora seus recursos mais abundantes: os chips de ponta nos EUA e o vasto mercado interno aliado a modelos abertos na China.





