Nova medição confirma tensão de Hubble e desafia explicações simples

Uma colaboração internacional de astrónomos voltou a medir a velocidade de expansão do Universo e obteve um valor que aprofunda a chamada “tensão de Hubble”. Usando a técnica de cosmografia de atraso temporal, o grupo conhecido como TDCOSMO encontrou para a constante de Hubble (H0) o valor de 71,6 km/s/Mpc. O resultado, apresentado a 28 de janeiro de 2026, aproxima-se das estimativas feitas com supernovas do tipo Ia e distancia-se das obtidas a partir da radiação cósmica de fundo. A diferença reforça a hipótese de que a discrepância resulta de fenómenos físicos ainda não compreendidos, e não de falhas de medição.

Medição independente reforça discrepância

Desde os anos 1920, a constante de Hubble é calculada por vários métodos. Observações da radiação cósmica de fundo, conduzidas pelo telescópio espacial Planck, indicam 67 km/s/Mpc. Já estudos baseados em supernovas recentes apontam para cerca de 73 km/s/Mpc. A incompatibilidade entre os dois extremos é conhecida como tensão de Hubble.

O valor agora divulgado situa-se praticamente no centro desse intervalo, mas próximo da estimativa das supernovas. Por ser obtido com um procedimento totalmente diferente, o novo número funciona como verificação cruzada. “Se houvesse um erro sistemático comum aos métodos tradicionais, esta técnica não o replicaria”, resume Kenneth Wong, membro da equipa e investigador da Universidade de Tóquio.

Como funciona a cosmografia de atraso temporal

A estratégia recorre à lente gravitacional. Quando uma galáxia massiva se alinha entre a Terra e um objeto mais distante, o intenso campo gravitacional dessa galáxia desvia a luz e multiplica a imagem do objeto que está atrás. Cada uma dessas imagens percorre rotas ligeiramente diferentes até chegar aos telescópios, acumulando atrasos que podem ser medidos.

No estudo, os cientistas escolheram oito quasares fortemente distorcidos. As observações foram realizadas com o Telescópio Espacial James Webb, o Keck, o Very Large Telescope e outros instrumentos terrestres. Ao comparar flutuações idênticas, mas desfasadas no tempo, foi possível determinar o intervalo que a luz levou em cada trajeto. Esses dados, combinados com modelos da distribuição de massa da galáxia que faz a lente, permitem calcular a distância percorrida e, por consequência, a taxa de expansão do Universo.

Por que o resultado importa

O facto de H0 continuar a apresentar valores distintos, mesmo quando derivado de métodos independentes, leva a comunidade científica a considerar a possibilidade de nova física. As hipóteses discutidas incluem variações na densidade de energia escura, interações ainda desconhecidas entre partículas fundamentais ou ajustes na relatividade geral em escalas cósmicas.

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Imagem: Tecnologia Inovação Notícias

Entender essa discrepância é decisivo para construir modelos cosmológicos mais precisos. A constante de Hubble influencia estimativas de idade do Universo, distribuição de matéria e evolução de estruturas galácticas. Qualquer revisão substancial em H0 terá impacto direto em várias áreas da astrofísica.

Próximos passos da investigação

A TDCOSMO planeia ampliar a amostra de quasares analisados e refinar os modelos de massa das galáxias lente. Em paralelo, outras equipas preparam medições por meio de variabilidade de quasares, observações de ondas gravitacionais de fusões de estrelas de neutrões e estudos de fundos de micro-ondas. A convergência ou não desses novos dados deverá indicar se a tensão de Hubble decorre efetivamente de limitações teóricas ou de ajustes finais nos instrumentos.

Enquanto isso, a diferença persistente entre os 67 km/s/Mpc do Universo primordial e os 73 km/s/Mpc do Universo mais recente mantém-se como um dos principais desafios da cosmologia contemporânea. O valor de 71,6 km/s/Mpc divulgado pela TDCOSMO acrescenta mais evidências de que a resposta pode exigir ampliar as fronteiras da física atual.

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