São Paulo — A mãe do ex-jogador Adriano perdeu R$ 15 mil após ser enganada por golpistas no WhatsApp que se passaram pelo filho. O ex-atleta anunciou nas redes sociais que vai tentar localizar os responsáveis.
Como o golpe foi aplicado
Segundo relato público de Adriano, o criminoso usou um número desconhecido e alegou que o antigo contacto do ex-jogador havia sido exposto. Com uma foto extraída das redes sociais, o golpista pediu dinheiro à vítima, que realizou a transferência bancária.
Investigações preliminares indicam uso de ferramentas de inteligência artificial para reforçar a fraude. Técnicas de deepfake permitem clonar voz ou imagem de pessoas públicas a partir de registos disponíveis online. Nesse caso, a grande quantidade de entrevistas do ex-atleta teria fornecido material suficiente para gerar áudio ou vídeo convincentes, aumentando a credibilidade do pedido.
A estratégia “este é o meu novo número” é frequente em esquemas no aplicativo. Os fraudadores criam um perfil com fotografia real, estabelecem contacto direto e solicitam quantias urgentes. A presença de elementos visuais e, agora, de áudio sintético dificulta a identificação imediata da falsificação.
Obstáculos para rastrear os responsáveis
Hiago Kin, presidente do Instituto Brasileiro de Resposta a Incidentes Cibernéticos (Ibrinc), observa que figuras públicas contam com o chamado “efeito rede”. A mobilização de seguidores aumenta a probabilidade de alguém reconhecer o autor do golpe e fornecer informações. Contudo, fatores técnicos complicam a investigação.
Fraudadores raramente respondem após obter o dinheiro. As contas bancárias utilizadas são, na maioria das vezes, de titulários de fachada — os chamados “laranjas”. Os valores costumam permanecer pouco tempo nesses registos, passando rapidamente por diversas instituições para dificultar o rastreio.
A orientação formal para qualquer vítima é registrar boletim de ocorrência, detalhando número de telefone, método de abordagem e conta de destino. O documento permite associar casos semelhantes, acionar bancos para bloquear contas suspeitas e, em determinadas circunstâncias, recuperar parte do prejuízo. No entanto, investigações policiais tendem a priorizar ocorrências com grande volume de vítimas.
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024 aponta tendência de alta nesse tipo de crime. Foram 1.966.353 casos de estelionato no último ano, contra 870.320 roubos. O relatório atribui a expansão das fraudes on-line à baixa capacidade investigativa e à formação ainda limitada de agentes em delitos digitais, fatores que reduzem a chance de prisão dos responsáveis.
Imagem: Tecnologia Inovação Notícias
Por que a inteligência artificial amplia o risco
A popularização de ferramentas de clonagem de voz e imagem facilita a criação de conteúdo sintético com aparência legítima. Para personalidades com vasta exposição, como Adriano, a abundância de material público oferece base para composições de alta qualidade.
Especialistas explicam que, em fraudes mais simples, o áudio clonado pode servir para uma mensagem curta confirmando o pedido de emergência. Em versões mais complexas, vídeo com rosto e voz falsificados é apresentado em chamadas. Embora ainda existam falhas de sincronia labial, o efeito é suficiente para convencer vítimas em situações de pressão.
Recomendações básicas às vítimas
O Ibrinc reforça a importância de verificar solicitações financeiras recebidas por aplicativos de mensagem. Contatar diretamente o familiar por outro canal, checar detalhes pessoais e desconfiar de urgência são medidas iniciais. Após a transferência, a vítima deve:
• Registrar boletim de ocorrência
• Informar banco e fornecer comprovantes
• Solicitar bloqueio da conta recebedora, se ainda possível
Embora não haja garantia de recuperação integral dos valores, essas ações ajudam a mapear redes criminosas e impedir novas fraudes.
Até o momento, Adriano não divulgou resultados da busca pelos responsáveis. O caso mantém em evidência a evolução das técnicas de engenharia social aliadas à inteligência artificial e ressalta a necessidade de atualização constante de práticas de segurança digital.





