O anúncio do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa básica de juros em 15% ao ano, divulgado na noite desta quarta-feira (28), provocou reação imediata de entidades da indústria, da construção civil, do comércio e de centrais sindicais. Para representantes do setor produtivo, o atual patamar de juros encarece o crédito, limita o investimento e ameaça o ritmo de geração de empregos.
Indústria vê custo elevado e pede início do ciclo de cortes
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) afirmou que a decisão ignora a trajetória recente de desaceleração da inflação e impõe “custo elevado” à atividade económica. Segundo a entidade, a inflação corrente e as expectativas para os próximos anos caminham para o centro da meta, o que abriria espaço para a flexibilização da política monetária.
Ricardo Alban, presidente da CNI, declarou em nota que o Copom “perpetua um nível de juros insustentável” e aprofunda a desaceleração do crescimento. Ele defende que o Banco Central inicie cortes já na próxima reunião, prevista para março. Dados citados pela confederação indicam taxa real em torno de 10,5% ao ano, aproximadamente 5,5 pontos percentuais acima da estimativa de juro neutro da própria autoridade monetária.
Construção civil e comércio alertam para impacto no crédito
Na construção civil, a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) avaliou que os juros elevados restringem o financiamento imobiliário, reduzem a procura por novos empreendimentos e dificultam a viabilização de projetos públicos e privados. Para o presidente da entidade, Renato Correia, a política monetária contracionista “desacelera a atividade e afeta toda a cadeia produtiva, com reflexos prolongados sobre emprego e renda”.
A Associação Comercial de São Paulo (ACSP) adotou tom mais cauteloso. O economista Ulisses Ruiz de Gamboa entende que a manutenção da Selic reflete prudência diante de incertezas fiscais e do cenário externo. No entanto, ele reconhece que a desaceleração da economia já é visível e que a sinalização do Copom sobre os próximos passos será fundamental para reduzir o custo do crédito às empresas.
Centrais sindicais apontam efeitos sobre consumo e emprego
Trabalhadores organizados em centrais sindicais ampliaram o coro de críticas. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) afirmou que o Brasil permanece entre os países com juros reais mais altos do mundo, o que penaliza consumidores e empresas. Juvandia Moreira, presidenta da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), lembrou que cada ponto percentual a mais na Selic adiciona cerca de R$ 50 bilhões aos gastos públicos com juros da dívida.
Para a Força Sindical, a decisão representa “irresponsabilidade social” ao favorecer ganhos financeiros em detrimento da produção. O presidente da entidade, Miguel Torres, argumenta que juros elevados ampliam o endividamento das famílias e travam projetos de expansão de empresas, com impacto direto na geração de postos de trabalho.
Contexto macroeconómico e expectativa para as próximas reuniões
O Copom manteve a Selic em 15% pela quinta vez consecutiva, nível mais alto desde 2006. A decisão veio alinhada à expectativa da maior parte dos analistas, que apontavam inflação ainda acima do centro da meta, incertezas fiscais sobre o resultado primário e riscos externos associados à desaceleração global.
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O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) encerrou 2025 em 4,26%, abaixo do teto de 4,5%, enquanto o Boletim Focus projeta inflação de 4% em 2026 e convergência gradual a 3% nos anos seguintes. Mesmo assim, a autoridade monetária reiterou, no comunicado, a necessidade de “serenidade e perseverança” para assegurar a trajetória de queda dos preços.
Economistas consultados por instituições financeiras ressaltam que o caminho para cortes depende da evolução do cenário fiscal, da redução das expectativas inflacionárias e de sinais mais claros de arrefecimento da atividade. Caso esses fatores avancem, agentes de mercado vislumbram um primeiro corte modesto no segundo trimestre, abaixo de um ponto percentual.
Pressão sobre investimento e crédito deve persistir
Em paralelo, levantamentos internos das entidades do setor produtivo apontam retração no volume de concessões de crédito nos últimos meses, sobretudo para capital de giro e financiamento imobiliário. Empresas de médio porte relatam custos nominais superiores a 20% ao ano, o que inibe planos de expansão ou modernização de parques fabris.
Na construção civil, incorporadoras calculam recuo de até 15% nos lançamentos em 2025, atribuído ao encarecimento das parcelas para compradores. Na indústria, projetos de ampliação de capacidade foram postergados, enquanto sindicatos estimam redução de admissões formais nos primeiros meses de 2026.
O desfecho da próxima reunião do Copom, agendada para o fim de março, tornou-se o foco do debate. Para o setor produtivo, um sinal concreto de início do ciclo de cortes seria crucial para destravar investimento, estimular o consumo e reforçar a confiança empresarial. Até lá, a expectativa é de continuidade da pressão sobre crédito, produção e mercado de trabalho.





