O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) detalhou o avanço do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), que prevê R$ 23 bilhões em recursos até 2026 e inclui a instalação de um supercomputador capaz de figurar entre os cinco mais potentes do mundo.
Horizonte de quatro anos e continuidade política
O PBIA estabelece metas para um período de pouco mais de quatro anos. Segundo Hugo Valadares, diretor do Departamento de Ciência, Tecnologia e Inovação Digital do MCTI, o prazo foi definido a partir da disponibilidade orçamentária do atual ciclo de governo. Ele destaca que a manutenção das ações dependerá de administrações futuras:
“A partir do momento em que lançamos o plano, o Brasil se coloca no jogo dentro de suas possibilidades económicas. A continuidade, porém, exige que próximos governos mantenham o tema como prioridade”, afirma.
Valadares lembra que, apesar de limitações financeiras, o país figura como a décima maior economia do planeta e dispõe de um ecossistema relevante de formação de mestres e doutores. Para o diretor, a consolidação de políticas de longo prazo é essencial, pois “inovação não surge de um dia para o outro; requer cadeia de formação, investimento e tempo para retorno”.
Comparação internacional e limites do investimento
O diretor do MCTI reconhece que o montante de R$ 23 bilhões não coloca o Brasil no mesmo patamar de Estados Unidos e China, cujo dispêndio em inteligência artificial atinge centenas de bilhões de dólares. “Se existisse uma ‘Champions League’ da IA, esses dois países jogariam sozinhos. Nem a Europa dispõe de recursos equivalentes”, avalia.
A estratégia nacional, portanto, aposta em nichos específicos e na cooperação entre governo, universidades e empresas para maximizar resultados. Valadares cita como exemplo o fortalecimento de programas de pós-graduação e de centros de pesquisa distribuídos em todo o território.
Supercomputador dedicado à IA
Parte dos recursos do PBIA — R$ 1,8 bilhão — está reservada para a compra e instalação de um supercomputador voltado exclusivamente a tarefas de inteligência artificial. A expectativa oficial é que o equipamento seja entregue e entre em operação ainda em 2026.
Quando estiver ativo, o sistema deverá integrar a lista das cinco máquinas mais potentes do planeta, segundo projeção do MCTI. O objetivo é oferecer capacidade de processamento para instituições de pesquisa, startups e órgãos públicos interessados em treinar modelos avançados de IA sem depender de infraestruturas estrangeiras.
Bases de dados públicas como diferencial
Valadares aponta o conjunto de bases de dados governamentais como trunfo para o desenvolvimento de soluções de IA no país. Sistemas como DataSUS, CadÚnico e os registros da Receita Federal reúnem informações extensas e diversificadas que, quando tratadas com protocolos de segurança e privacidade, podem alimentar algoritmos em áreas como saúde, educação e administração pública.
Imagem: Tecnologia Inovação Notícias
“O mundo inveja a diversidade de bases de dados do Brasil”, resume o diretor. Iniciativas como a Infraestrutura Nacional de Dados (IND) e a nova Carteira de Identidade Nacional buscam integrar plataformas para agilizar serviços e gerar insights baseados em inteligência artificial.
Debate sobre importação de tecnologia
Durante a apresentação do PBIA, Valadares rebateu correntes de pensamento que defendem limitar o Brasil à importação de tecnologia de ponta. Segundo ele, essa não é a diretriz do atual governo federal, que vê na produção local de conhecimento um vetor para aumentar a competitividade económica e reduzir dependências externas.
Para o gestor, formar recursos humanos e promover pesquisa interna são condições básicas para que o país participe da economia digital em condições mais favoráveis. “Temos competências reconhecidas em universidades e institutos; deixar de investir seria desperdiçar capital humano já consolidado”, argumenta.
Próximos passos do PBIA
Além do supercomputador, o plano inclui:
- Financiamento de laboratórios de IA em todas as regiões do país;
- Bolsas para formação de especialistas em universidades brasileiras e estrangeiras;
- Parcerias com empresas para transferência de tecnologia e criação de produtos de alto valor agregado;
- Programas de inovação aberta voltados a pequenas e médias empresas.
Valadares reforça que a execução dos projetos será monitorada por indicadores de desempenho. Relatórios periódicos deverão avaliar o impacto dos investimentos e ajustar ações quando necessário.
Com metas financeiras definidas, cronograma até 2026 e foco em infraestrutura de ponta, o PBIA pretende posicionar o Brasil como produtor — e não apenas consumidor — de soluções em inteligência artificial, ainda que reconheça a distância em relação às potências líderes do setor.





