Tim Berners-Lee, criador da World Wide Web, afirmou ser possível corrigir os principais problemas da internet e apresentou duas frentes de atuação: a descentralização das redes online e a criação de um laboratório internacional dedicado à pesquisa em inteligência artificial (IA). As declarações foram concedidas ao jornal britânico The Guardian e reacendem o debate sobre governança digital em escala mundial.
Concentração reduz autonomia dos usuários
De acordo com Berners-Lee, a web transformou-se em um ecossistema dominado por poucas plataformas comerciais, como Facebook, Instagram, YouTube e X (antigo Twitter). Para o cientista, esse cenário favorece a manipulação de conteúdos, impulsiona a disseminação de desinformação e aprofunda a polarização política. O inventor atribui a situação à forte comercialização surgida nos Estados Unidos na década de 1990, quando o ambiente acadêmico cedeu lugar a interesses empresariais.
Como resposta, o pesquisador propõe devolver o controle aos usuários por meio da descentralização. Redistribuir poder, segundo ele, seria essencial para recuperar a diversidade de serviços e reduzir dependência de grandes conglomerados. O especialista acompanha ainda medidas regulatórias em curso, como a decisão da Austrália de impedir menores de 16 anos de acessar redes sociais. Ele defende, porém, distinção entre redes sociais e aplicativos de mensagens, que considera úteis inclusive para jovens.
Um “CERN” para inteligência artificial
Para enfrentar desafios trazidos pela IA, Berners-Lee sugere estratégia diferente: a criação de um centro internacional de pesquisa nos moldes do CERN, laboratório europeu de física de partículas. A estrutura reuniria cientistas de ponta em ambiente controlado, destinado a desenvolver sistemas avançados, avaliar riscos em tempo real e estabelecer salvaguardas antes da adoção em larga escala.
Na visão do inventor da web, apenas um consórcio global, transparente e colaborativo permitirá definir limites claros e impedir que modelos cada vez mais potentes escapem ao controle humano. Ele argumenta que a definição de padrões internacionais reduziria a fragmentação regulatória e facilitaria o acompanhamento do impacto social, econômico e ético dos algoritmos.
Imagem: Internet
Incidente nos EUA reforça necessidade de regras claras
O debate sobre uso seguro da IA ganhou novo episódio nos Estados Unidos. Madhu Gottumukkala, diretor de uma agência vinculada ao Departamento de Segurança Interna (DHS), inseriu documentos classificados como “uso oficial” na versão pública do ChatGPT. O envio de informações sensíveis levou o departamento a abrir investigação interna para avaliar possíveis riscos à segurança nacional. O caso, noticiado em 29 de janeiro de 2026, expõe falhas de controle quando ferramentas de IA são utilizadas sem diretrizes rígidas.
Autoridades norte-americanas buscam verificar se os dados compartilhados foram armazenados ou replicados pela plataforma, situação que ameaçaria protocolos de confidencialidade. O episódio reflete as preocupações de Berners-Lee sobre a importância de ambientes supervisionados para testar e validar tecnologias de IA antes de seu uso amplo.
Soluções coordenadas para problemas globais
As propostas de Berners-Lee somam-se a iniciativas internacionais que tentam equilibrar inovação, liberdade individual e proteção de dados. A União Europeia discute o AI Act, o Reino Unido organiza cúpulas de segurança digital e os Estados Unidos avaliam restrições pontuais ao uso de IA. Apesar dos avanços, o criador da web sustenta que apenas ações coordenadas — combinando descentralização da internet e governança compartilhada na IA — conseguirão restaurar os princípios de abertura e confiança que marcaram o início da rede.





