Pentágono e Anthropic entram em impasse sobre uso militar de IA

O Departamento de Defesa dos Estados Unidos e a Anthropic, empresa de inteligência artificial sediada em São Francisco, travam um debate direto sobre os limites de utilização da tecnologia desenvolvida pela companhia. Três fontes com conhecimento das negociações afirmam que o Pentágono pressiona pela remoção de salvaguardas que barram o emprego da IA em armamento autónomo e em atividades de vigilância dentro do território norte-americano, enquanto a empresa resiste a essa flexibilização.

Impasse após semanas de negociação

As partes discutem os termos de um contrato há várias semanas, segundo seis pessoas envolvidas. Até o momento, não foi possível conciliar as exigências militares com a postura corporativa da Anthropic. A ausência de acordo criou um impasse que, na prática, paralisa a adoção oficial da tecnologia pelo Departamento de Defesa.

O ponto central da controvérsia é a eventual eliminação de proteções internas da plataforma de IA. Caso tais barreiras sejam suspensas, ficaria tecnicamente viável que algoritmos da Anthropic identificassem e selecionassem alvos de forma totalmente autónoma ou fossem incorporados a sistemas de monitorização doméstica. A empresa considera esse cenário incompatível com suas diretrizes de segurança, afirmam os interlocutores ouvidos.

Do lado governamental, interlocutores sustentam que a flexibilização é necessária para integrar de maneira plena os recursos de inteligência artificial às operações militares. Eles observam que os sistemas automatizados podem acelerar processos de decisão no campo de batalha e ampliar a precisão de missões de reconhecimento.

Teste à influência do Vale do Silício em Washington

Segundo as mesmas fontes, o desacordo ganha peso simbólico por ocorrer num momento em que empresas de tecnologia procuram reconstruir a relação com Washington depois de anos de tensão. A forma como o governo dos Estados Unidos lida com as proteções propostas pela Anthropic é vista como um termômetro da capacidade do Vale do Silício de impor critérios éticos sobre o uso operacional de suas criações.

Para o Pentágono, assegurar acesso irrestrito a soluções de IA faz parte de uma estratégia mais ampla de modernização das Forças Armadas. A posição adotada pela Anthropic, contudo, intensificou divergências com a administração de Donald Trump, relatam as fontes próximas às tratativas.

A manutenção das salvaguardas também se tornou ponto sensível dentro da própria companhia. Integrantes da equipe técnica defendem que as restrições são indispensáveis para evitar usos que contrariam princípios declarados pela organização. Até agora, a liderança da empresa tem respaldado essa linha, mesmo diante da pressão de um dos maiores potenciais clientes governamentais do planeta.

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Imagem: Internet

Salvaguardas em debate

As proteções contestadas pelo Departamento de Defesa consistem em filtros que limitam comandos capazes de gerar resultados letais ou invadir a privacidade de cidadãos norte-americanos. Na prática, esses filtros impedem que a IA atue sem intervenção humana em processos como a identificação de alvos, a execução de ataques ou a coleta massiva de dados em solo doméstico.

Fontes familiarizadas com o diálogo confirmam que o Pentágono solicitou alterações específicas nos parâmetros de segurança. O objetivo seria permitir que determinadas unidades militares e órgãos de inteligência acionassem o sistema em cenários estratégicos, sem que cada decisão passasse por validação externa. A Anthropic, por sua vez, teme que essa flexibilização abra caminho para ações que escapem ao controlo civil e jurídico.

Perspetivas e próximos passos

Embora o contrato permaneça em suspenso, as partes não descartam retomar as conversas. Interlocutores de ambos os lados avaliam internamente ajustes que possam acomodar interesses militares sem violar as diretrizes da empresa. Por ora, nenhuma nova rodada de negociação foi confirmada.

O impasse coloca em evidência o desafio de equilibrar inovação tecnológica, segurança nacional e proteção de direitos civis. Caso a Anthropic mantenha a recusa em alterar suas salvaguardas, o Pentágono poderá procurar fornecedores com políticas mais flexíveis. Se, por outro lado, a empresa ceder, corre o risco de abalar compromissos públicos assumidos sobre o uso responsável da inteligência artificial.

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