Um júri federal em São Francisco declarou culpado o ex-engenheiro de software do Google, Linwei Ding, por furtar segredos comerciais relacionados com inteligência artificial para favorecer duas empresas chinesas com as quais colaborava de forma oculta. A decisão, anunciada pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ) na quinta-feira, encerra um julgamento de 11 dias que avaliou a transferência indevida de milhares de páginas de documentação confidencial.
Detalhes das acusações e possíveis penas
Ding, cidadão chinês de 38 anos, enfrentou sete acusações de espionagem económica e sete de roubo de segredos comerciais. Cada imputação de espionagem prevê pena máxima de 15 anos de prisão e multa de 5 milhões de dólares, enquanto cada violação por segredos comerciais pode resultar em até 10 anos de detenção e multa de 250 mil dólares. No total, o réu responde, potencialmente, a várias décadas de prisão.
A audiência de apresentação da sentença ficou agendada para 3 de fevereiro. Até ao momento, o advogado de defesa de Ding, também referido como Leon Ding, não se manifestou publicamente sobre o veredito.
Modus operandi dentro do Google
De acordo com a acusação, Ding trabalhou no Google de maio de 2019 a junho de 2023. O Ministério Público sustenta que, três anos após a contratação, o engenheiro começou a extrair informações sensíveis enquanto negociava oportunidades com uma startup chinesa do setor. Entre os materiais obtidos estariam detalhes sobre a infraestrutura de hardware e a plataforma de software responsável por treinar grandes modelos de IA nos centros de dados de supercomputação da empresa.
Os promotores afirmam que parte dos projetos em questão incluía o desenvolvimento de chips personalizados destinados a reduzir a dependência do Google dos componentes da Nvidia, além de proporcionar vantagem competitiva em relação aos serviços de nuvem da Amazon e da Microsoft, que também projetam os próprios semicondutores.
Atuação da força-tarefa norte-americana
O caso foi conduzido pela Disruptive Technology Strike Force, grupo interagências criado pelo governo dos Estados Unidos em 2023 para combater o desvio de tecnologias sensíveis. A força-tarefa reuniu especialistas do Departamento de Justiça, do Comércio e de outras entidades federais para rastrear possíveis transferências ilícitas de propriedade intelectual estratégica.
A acusação inicial, apresentada em março de 2024, incluía quatro crimes. Em fevereiro deste ano, uma nova peça acusatória ampliou o leque para 14 imputações, incluindo espionagem económica. O Google não foi denunciado no processo e informou ter colaborado com as autoridades durante a investigação.
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Implicações para a indústria de tecnologia
O roubo de propriedade intelectual envolvendo grandes modelos de IA ressalta a crescente disputa por vantagem tecnológica entre empresas e, indiretamente, entre países. Projetos de semicondutores próprios tornaram-se prioritários para gigantes de nuvem como Google, Amazon e Microsoft, numa tentativa de reduzir custos e dependência de fornecedores tradicionais. O DOJ argumenta que a divulgação de tais informações comprometeria avanços estratégicos obtidos após anos de pesquisa e investimento.
Embora a sentença definitiva ainda dependa da audiência marcada, o caso já gera repercussões sobre práticas de segurança interna em grandes multinacionais. A transferência não autorizada de ficheiros, mesmo realizada por colaboradores com acesso legítimo, reforça a necessidade de mecanismos de monitorização e limitação de privilégios em projetos críticos.
Próximos passos judiciais
Com a condenação formal, o tribunal avaliará circunstâncias atenuantes ou agravantes para definir o período de prisão e o montante das multas. Caso se confirmem penas máximas, Ding poderá enfrentar até 105 anos de prisão e multas que ultrapassam 35 milhões de dólares.
A defesa ainda pode recorrer, mas qualquer pedido deverá ser apresentado após a leitura da sentença. Até lá, o ex-engenheiro permanece sob custódia das autoridades federais.
O Departamento de Justiça reiterou que continuará a priorizar investigações envolvendo tecnologia de ponta, especialmente quando haja indícios de transferência para concorrentes estrangeiros. O desfecho do processo contra Linwei Ding torna-se, assim, um marco na repressão a infrações de propriedade intelectual nos Estados Unidos.





