A StoneX, grupo financeiro com sede nos Estados Unidos, aparece em documentos investigativos que indicam a aquisição de milhões de dólares em ouro proveniente de um fornecedor associado a operações de garimpo ilegal na floresta amazônica. As informações constam de relatórios publicados pelo The Bureau of Investigative Journalism e pela organização Repórter Brasil.
Fornecedor brasileiro é ligado a rede de garimpos sancionados
De acordo com os relatórios, o elo entre a StoneX e a mineração ilegal seria um fornecedor brasileiro que comercializa o metal no mercado internacional. Documentos obtidos pelas duas entidades jornalísticas sugerem que esse intermediário obtém parte do ouro a partir de uma rede de mineradoras informais. Algumas dessas frentes de extração já foram alvo de sanções da agência ambiental federal brasileira, responsável por aplicar multas e embargos em áreas de exploração não autorizada.
Os investigadores indicam que o ouro sai dos garimpos sem registros adequados, passa por pequenas cooperativas e chega ao fornecedor que, por sua vez, vende o metal para compradores institucionais. Nesse percurso, notas fiscais e certificados de origem muitas vezes não correspondem à procedência real, o que dificulta rastrear o caminho do minério até o mercado global.
Embora não exista acusação formal contra a StoneX, o vínculo comercial com o fornecedor mencionado levanta dúvidas sobre os mecanismos de diligência adotados para verificar a origem do metal. Os relatórios também apontam para lacunas na legislação brasileira que permitem a emissão de documentação com base apenas em declarações dos próprios garimpeiros, sem fiscalização presencial obrigatória.
Pressão econômica impulsiona avanço do garimpo na Amazônia
A Amazônia é considerada um dos principais amortecedores climáticos do planeta, mas tem enfrentado expansão acelerada da mineração artesanal, impulsionada pela valorização do ouro no mercado internacional. O preço do metal atingiu níveis historicamente altos em meio à incerteza econômica global e às tensões geopolíticas dos últimos anos, o que aumentou a rentabilidade das operações clandestinas.
Especialistas citados nos relatórios destacam que o garimpo não regulamentado provoca desmatamento, contamina rios com mercúrio e gera conflitos com comunidades indígenas. Dados oficiais mostram crescimento de áreas degradadas em unidades de conservação e terras indígenas, muitas vezes próximas a frentes de extração consideradas ilegais.
Além dos impactos ambientais, a cadeia de suprimentos do ouro amazônico levanta riscos reputacionais e financeiros para empresas que atuam no comércio internacional do metal. Organizações de direitos humanos e investidores institucionais exigem cada vez mais transparência sobre a origem de commodities sensíveis, pressionando grandes companhias a reforçar auditorias e sistemas de rastreabilidade.
Imagem: Internet
Contexto regulatório e desafios de fiscalização
No Brasil, a emissão de Permissões de Lavra Garimpeira (PLGs) e de Guias de Transporte e Utilização (GTUs) permite a circulação de ouro em território nacional. Entretanto, os relatórios indicam que garimpeiros ilegais costumam usar documentos pertencentes a áreas com autorização regular para “esquentar” o minério extraído em locais irregulares. Essa prática interfere na capacidade das autoridades de distinguir ouro legal de ilegal nas etapas de compra e exportação.
A agência ambiental federal, responsável por fiscalização de áreas protegidas, aplica multas e embargos, mas enfrenta limitações orçamentárias e logísticas. O acesso remoto e a expansão de frentes de garimpo dificultam a inspeção em campo, enquanto a ausência de um sistema digital unificado de rastreabilidade fragiliza o controle documental.
Repercussão internacional e possíveis desdobramentos
A divulgação dos relatórios coloca a StoneX sob escrutínio de organismos reguladores e de investidores preocupados com práticas de sustentabilidade. Autoridades americanas e brasileiras podem avaliar se há violação de normas de due diligence ou de combate à lavagem de dinheiro, caso fique comprovada a compra de ouro sem origem legalmente verificada.
Analistas do setor afirmam que a investigação pode estimular mudanças nos protocolos de verificação de origem, não apenas na StoneX, mas em toda a indústria financeira que negocia metais preciosos. Propostas em discussão incluem a criação de plataformas digitais para registro de transações e adoção de tecnologias de rastreamento por satélite para monitorar frentes de extração.
Enquanto a pressão internacional aumenta, organizações ambientais reiteram a necessidade de fortalecer a fiscalização na Amazônia e de ampliar programas de desenvolvimento econômico sustentável para reduzir a dependência do garimpo. O caso evidencia como a valorização global do ouro se conecta a práticas locais de extração e aos desafios de governança em regiões de alta relevância ecológica.





