Um cachorro comunitário foi morto a tiros na zona leste de São Paulo, ampliando a lista de ocorrências de maus-tratos que têm marcado o País nas últimas semanas. O crime, registrado em 18 de janeiro no bairro Jardim Três Marias, só ganhou repercussão após a divulgação de imagens de uma câmara de segurança que mostram um homem disparando dez vezes contra o animal.
Investigação busca identificar o autor dos disparos
O caso foi formalizado na 3.ª Delegacia do Meio Ambiente como abuso a animais e disparo de arma de fogo. A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo informou que a Polícia Civil “realiza todas as diligências necessárias para esclarecer as circunstâncias do crime”. As imagens já foram recolhidas e testemunhas do bairro começaram a prestar depoimento. Até o momento, o suspeito não foi identificado.
De acordo com moradores, o cão circulava livremente pela região e recebia cuidados coletivos, situação classificada como “posse responsável compartilhada” em normativas municipais. Vizinhos relataram surpresa com a violência do ataque, ressaltando que o animal era dócil e habituado ao convívio com a comunidade local.
A investigação concentra-se em três frentes: análise das imagens, perícia balística e coleta de relatos. A arma empregada, conforme indícios preliminares, seria de pequeno porte, compatível com revólver ou pistola de calibre restrito. O resultado dos exames periciais deverá orientar a busca pelo autor e esclarecer se houve outras infrações, como porte ilegal de arma.
Casos recentes no Sul reforçam alerta para maus-tratos
O episódio na capital paulista ocorre num período de sucessivas ocorrências contra cães em diferentes Estados do Sul. Em 27 de janeiro, um animal sem raça definida — apelidado “Negão” — foi baleado por um policial militar em Campo Bom, município do Vale dos Sinos, a cerca de 55 quilómetros de Porto Alegre. Segundo testemunhas, o disparo foi efetuado durante abordagem a moradores. O cão foi socorrido a tempo e sobreviveu, mas o caso está sob apuração pela Brigada Militar e pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul.
Outros dois episódios resultaram em mortes. Em Santa Catarina, o cão “Orelha” foi ferido mortalmente no início do mês. Dias depois, no Paraná, o animal conhecido como “Abacate” também não resistiu após ser baleado. Ambos os fatos estão em investigação pelas respectivas polícias civis, com registros de boletins por maus-tratos e uso irregular de arma de fogo.
Legislação prevê penas mais graves
Conforme a Lei 14.064/2020, que alterou a Lei de Crimes Ambientais, a prática de abuso, maus-tratos ou mutilação de cães e gatos é punida com reclusão de dois a cinco anos, multa e proibição de guarda. Se houver morte, a pena pode alcançar o teto máximo, além de agravo pela utilização de arma de fogo.
Especialistas em direito animal observam que o aumento no número de denúncias decorre, em parte, da maior facilidade de filmagem e partilha de provas. Câmaras de segurança, telemóveis e redes sociais ajudam a impulsionar investigações e pressionam autoridades a agir mais rapidamente.
Imagem: Internet
Pressão por medidas de prevenção
Entidades de proteção animal defendem ações educativas e reforço de fiscalização para evitar novas ocorrências. Organizações não governamentais apontam carências na estrutura policial para atendimento de crimes ambientais, sobretudo em delegacias especializadas, e cobram integração com guardas municipais, Ministério Público e centros de zoonoses.
No Jardim Três Marias, voluntários organizaram um mutirão para instalar mais câmaras e colocar placas que alertam sobre a penalidade para maus-tratos. A comunidade também recolheu assinaturas num abaixo-assinado que pede celeridade na identificação do suspeito. A petição será enviada à Assembleia Legislativa paulista, solicitando audiência pública sobre violência contra animais de rua.
Impacto social e psicológico
Psicólogos entrevistados destacam que a agressão deliberada a animais pode servir de indicador de condutas violentas mais abrangentes. Estudos citados por profissionais de saúde mental mostram correlação entre maus-tratos a animais e risco aumentado de violência doméstica ou comunitária, reforçando a importância da pronta intervenção policial.
Enquanto aguardam avanços na investigação, moradores de São Paulo e do Sul do País mobilizam-se em redes sociais para compartilhar informações que auxiliem a polícia. Delegacias responsáveis mantêm sigilo sobre detalhes da apuração, mas confirmam linhas de investigação abertas e pedidos de imagens adicionais.
O conjunto de casos recentes traz de volta o debate sobre políticas de bem-estar animal e a necessidade de mecanismos eficazes de prevenção, investigação e punição. O desfecho das apurações poderá delimitar responsabilidades individuais e, segundo defensores da causa, servir de referência para evitar novas agressões.





