Brasil aposta em bases de dados públicas e supercomputador para impulsionar IA até 2026

O governo federal pretende usar a diversidade de bases de dados públicas do país como motor para a adoção de inteligência artificial (IA) nos serviços estatais. A estratégia foi detalhada por Hugo Valadares, diretor do Departamento de Ciência, Tecnologia e Inovação Digital do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em entrevista recente.

Dados públicos são o trunfo nacional

Segundo Valadares, conjuntos como DataSUS, Receita Federal e CadÚnico formam um acervo único no cenário internacional. A combinação de volume, variedade e atualização constante desses registros cria, na avaliação do diretor, um diferencial competitivo para projetos de IA aplicados ao setor público.

Para explorar o potencial dessa matéria-prima, o governo aposta na Infraestrutura Nacional de Dados (IND) e na Carteira de Identidade Nacional. As duas iniciativas integram sistemas hoje separados e pretendem acelerar a prestação de serviços à população. “As bases nacionais são um ativo estratégico, e trabalhamos para que sejam usadas no treino de modelos e na realização de inferências”, afirmou Valadares.

Aplicações práticas já em andamento

Mesmo antes de um ambiente integrado, órgãos federais e estaduais testam soluções de IA. No Ministério da Saúde, um projeto inicial de prontuário automático reúne informações clínicas para facilitar o atendimento. A tecnologia também é empregada para detectar fraudes no Sistema Único de Saúde e agilizar reembolsos de procedimentos.

No Poder Judiciário, ferramentas de geração de texto aceleram a análise de processos e ajudam magistrados na elaboração de sentenças. Essas experiências, de acordo com o diretor, demonstram que o país já possui casos concretos de uso, embora em escala limitada.

Formação de especialistas é o principal gargalo

Para sustentar a expansão da IA, o MCTI calcula que o Brasil precisaria formar cerca de 40 mil profissionais por ano. O volume cobre apenas a demanda atual e não considera o crescimento previsto para os próximos anos.

O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) atua em duas frentes: ampliar vagas em universidades e requalificar profissionais já formados, como docentes da educação básica. “Temos um ecossistema de pós-graduação relevante, mas é preciso intensificar a capacitação”, ressaltou Valadares.

Investimentos: R$ 23 bilhões, mas longe da “Champions League”

O PBIA prevê R$ 23 bilhões em recursos públicos e privados até 2026. Apesar do valor elevado para padrões nacionais, o montante é modesto diante dos centenas de bilhões de dólares investidos por Estados Unidos e China, aponta o diretor. Na metáfora usada por Valadares, os dois países disputam sozinhos a “Champions League da IA”; nem mesmo a Europa alcança atualmente esse patamar.

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Imagem: NewsUp Brasil

Com orçamento menor, a estratégia brasileira foca em nichos onde possui vantagens, como diversidade populacional e amplitude de dados governamentais. “O Brasil é a décima economia do mundo e entra no jogo dentro das suas possibilidades”, disse.

Supercomputador dedicado à IA chega em 2026

Parte central da política é a construção de um supercomputador para tarefas de IA, previsto para entrar em operação em 2026. O equipamento receberá R$ 1,8 bilhão e, segundo o MCTI, deve figurar entre as cinco máquinas mais potentes do planeta.

A infraestrutura permitirá treinar modelos de grande porte no próprio território, reduzindo custos com serviços externos e aumentando a segurança sobre dados sensíveis. O governo pretende hospedar o sistema em centro de pesquisa público ainda não definido.

Plano de quatro anos requer continuidade

O PBIA estabelece metas até 2026, intervalo que coincide com o ciclo orçamentário da atual gestão. A permanência desses projetos dependerá de decisões das próximas administrações. “Lançar o plano é um passo à frente; mantê-lo como prioridade é tarefa para os governos que vierem”, observou Valadares.

Com bases de dados robustas, investimentos direcionados e um supercomputador em vista, o Brasil busca consolidar um ecossistema próprio de IA. O sucesso, contudo, dependerá do ritmo de formação de especialistas e da capacidade de garantir continuidade às políticas de médio e longo prazo.

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