WASHINGTON – A SpaceX entregou à Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC) um pedido de autorização para colocar em órbita até 1 milhão de satélites capazes de captar energia solar no espaço e abastecer data centers dedicados à inteligência artificial (IA). O documento, submetido na sexta-feira e divulgado pela agência reguladora, detalha o plano da empresa de Elon Musk para ampliar a infraestrutura de computação fora da superfície terrestre.
Objetivo é reduzir custos e impacto ambiental
De acordo com a petição, os satélites iriam operar como usinas fotovoltaicas no espaço, onde a incidência de luz solar é praticamente constante. A energia obtida seria utilizada em data centers orbitais destinados a processar grandes volumes de modelos de IA. A SpaceX argumenta que a estratégia «alcançará eficiência energética e de custos transformadora», diminuindo a dependência de instalações terrestres que exigem consumo elevado de eletricidade e sistemas de refrigeração complexos.
Os data centers são apontados como o principal gargalo físico para a expansão da IA. A necessidade de energia crescente tornou-se um fator crítico para empresas como Google, Meta e OpenAI. Ao transferir parte da capacidade computacional para a órbita, a SpaceX diz que pode contornar limitações de infraestrutura, reduzir emissões associadas a combustíveis fósseis e evitar restrições de espaço em solo.
Starship é peça central na logística
Para viabilizar o lançamento em larga escala, a companhia baseia-se no desenvolvimento do Starship, foguete totalmente reutilizável projetado para transportar grandes cargas. Desde 2023, a nave realizou 11 voos de teste. O plano da empresa prevê alcançar frequência elevada de lançamentos, o que permitiria colocar «milhões de toneladas» em órbita por ano, segundo o documento entregue à FCC.
A SpaceX já utilizou a mesma estratégia em 2019, quando solicitou permissão para lançar 42 000 satélites Starlink. Atualmente, cerca de 9 500 unidades dessa rede de internet estão em atividade. O novo pedido repete a prática de requerer um número superior ao necessário para manter margem de manobra no desenho da constelação. Em toda a órbita terrestre há apenas 15 000 satélites operacionais, o que reforça o caráter ambicioso da proposta.
Fusão com a xAI e corrida pela IA
O envio do pedido ocorreu um dia depois de a Reuters noticiar que SpaceX e xAI, também fundada por Musk, discutem uma fusão antes de uma eventual abertura de capital. A integração das duas companhias permitiria combinar a infraestrutura de lançamento e operação de satélites da SpaceX com o desenvolvimento de modelos de IA da xAI.
Ao consolidar recursos, Musk busca posicionar-se na disputa por liderança em inteligência artificial, hoje marcada por investimentos crescentes de gigantes do setor. A proposta de data centers em órbita surge como diferencial para ampliar a oferta de capacidade de processamento e reduzir custos energéticos.
Imagem: Tecnologia & Inovação
Próximos passos dependem de aprovação regulatória
Para avançar, a SpaceX precisa de aval da FCC, órgão responsável por licenciar serviços de telecomunicações via satélite nos Estados Unidos. A análise leva em conta critérios como interferência de sinal, gestão de frequências e mitigação de detritos espaciais. A empresa argumenta que a reutilização do Starship tornará viável a remoção de satélites fora de operação, reduzindo riscos de colisão.
Embora a autorização seja etapa exigida, não há garantia de que a SpaceX vá lançar a quantidade máxima solicitada. Operadoras costumam pedir números elevados para garantir flexibilidade e ajustar o projeto conforme avanços tecnológicos ou limitações de custos.
Escala e desafios técnicos
Lançar 1 milhão de satélites exigirá progressos significativos em produção, propulsão e controle de tráfego espacial. Especialistas apontam que a empresa terá de demonstrar capacidade de fabricar artefatos a custos reduzidos, gerenciar coordenação orbital e prevenir interferências. Outro ponto crítico é a transmissão eficiente de energia ou dados entre satélites, estações terrestres e data centers em órbita.
A SpaceX não divulgou cronograma para a implementação integral da constelação. O documento à FCC menciona intenção de colocar as primeiras cargas úteis em órbita ainda em 2024, se os testes do Starship transcorrerem conforme o previsto.
Ao final, o projeto posiciona-se como um passo adicional na estratégia da SpaceX de expandir atividades além do fornecimento de internet via Starlink. Se obtiver aprovação, a iniciativa introduzirá um novo modelo de infraestrutura de TI, apoiado em energia solar espacial e no transporte orbital de alta capacidade.





