Experiência faz cristal do tempo levitar e contrariar Terceira Lei de Newton

Investigadores da Universidade de Nova Iorque apresentaram um novo tipo de cristal do tempo que permanece suspenso no ar graças à levitação acústica e cuja dinâmica viola a Terceira Lei de Newton. O trabalho, liderado pela física Mia Morrell, foi divulgado em 10 de fevereiro de 2026 e oferece uma abordagem simples para estudar matéria que oscila no tempo.

Cristal do tempo em almofada de som

Nos materiais cristalinos tradicionais, os átomos organizam-se em padrões que se repetem no espaço. Já nos cristais do tempo, essa repetição ocorre no domínio temporal: o sistema renova-se continuamente, mantendo um ritmo interno constante. Para criar esse comportamento, a equipa substituiu átomos por esferas de poliestireno de tamanhos distintos e utilizou um campo sonoro estacionário para levitá-las.

O campo é gerado por transdutores que produzem ondas sonoras opostas, formando uma região onde a pressão mantém as partículas suspensas contra a gravidade. Dentro dessa “almofada” de som, as esferas interagem ao refletir ondas acústicas umas nas outras, o que desencadeia oscilações regulares no tempo — característica essencial de um cristal do tempo.

Segundo Morrell, a técnica exige apenas equipamento de levitação já disponível em vários laboratórios, o que facilita a reprodução do experimento. A simplicidade contrasta com métodos anteriores que recorriam a temperaturas extremamente baixas ou a campos magnéticos intensos para obter fenômenos semelhantes.

Interações não-recíprocas desafiam Newton

O aspeto mais incomum do sistema surge da forma como as partículas trocam energia sonora. Esferas maiores espalham mais som do que as menores, gerando forças assimétricas: uma esfera grande exerce influência significativa sobre uma pequena, mas recebe um retorno mais fraco. Esse desequilíbrio torna a interação não-recíproca, condição que contraria o enunciado clássico da Terceira Lei de Newton (“para toda ação existe uma reação igual e oposta”).

Quando o conjunto de partículas é analisado, observa-se que as forças não se cancelam par a par; ainda assim, o sistema atinge um estado de oscilação estável, repetindo o movimento em intervalos regulares. Esse comportamento demonstra que, embora a conservação do momento global permaneça válida, as interações locais podem fugir à simetria tradicional em meios mediados por ondas.

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Imagem: Tecnologia Inovação Notícias

Impacto potencial e paralelos biológicos

Embora aplicações comerciais ainda não existam, a comunidade científica considera os cristais do tempo promissores para computação quântica, armazenamento de dados e estudo de fases exóticas da matéria. O modelo apresentado pela Universidade de Nova Iorque adiciona a vantagem de ser manipulável à temperatura ambiente, o que pode acelerar investigações nessa linha.

Os autores também sugerem analogias com relógios biológicos. Em redes bioquímicas, certas reações ocorrem de forma não-recíproca, sustentando ritmos circadianos no corpo humano. Assim, o cristal do tempo levitado pode servir como plataforma macroscópica para examinar processos que, em escala molecular, regulam funções vitais.

Apesar do ineditismo, o sistema permanece acessível: combina esferas de isopor, transdutores ultrassónicos e controladores de frequência. A disponibilidade desses componentes abre a possibilidade de que laboratórios de diferentes áreas reproduzam o arranjo, testem geometrias alternativas e investiguem como a não-reciprocidade acústica pode influenciar outras propriedades físicas.

A demonstração reforça a ideia de que forças mediadas por ondas não precisam obedecer a interações simétricas para gerar estruturas estáveis no tempo. Ao fazê-lo com materiais simples e fora de condições extremas, o estudo amplia o alcance experimental dos cristais do tempo e coloca em foco novos caminhos para explorar dinâmicas fora do equilíbrio na física moderna.

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