Uma equipa conjunta da NASA e da Universidade de Edimburgo demonstrou que microrganismos modificados geneticamente conseguem retirar metais de alto valor económico de rochas espaciais em condições de microgravidade. Os testes foram realizados na Estação Espacial Internacional (ISS) e representam um passo significativo para viabilizar a mineração extraterrestre sem o uso de maquinaria pesada.
Experimento pioneiro na Estação Espacial Internacional
Desde 2019, investigadores dos Estados Unidos e do Reino Unido desenvolvem uma estratégia que dispensa caminhões e escavadoras gigantes, comuns em minas terrestres, e aposta na biotecnologia. O trabalho mais recente envolveu amostras de um meteorito do tipo condrito submetidas a duas espécies diferentes: a bactéria Sphingomonas desiccabilis e o fungo Penicillium simplicissimum. Ambas foram treinadas para capturar elementos do grupo da platina — irídio, ósmio, paládio, platina, ródio e rutênio — considerados raros, caros e essenciais para setores como eletrónica e catálise química.
Os astronautas a bordo da ISS conduziram o ensaio principal, enquanto uma equipa em laboratório manteve amostras idênticas sob gravidade terrestre. Ao todo, 44 elementos químicos foram monitorizados; 18 deles apresentaram extração resultante da atuação biológica.
Resultados indicam eficiência estável em microgravidade
Os dados mostraram que Penicillium simplicissimum é particularmente eficiente na obtenção de paládio. Quando o fungo foi removido, a lixiviação não biológica — uso de solução sem micróbios para dissolver minerais — perdeu rendimento em microgravidade. Além disso, análises metabólicas revelaram que o fungo produziu quantidades mais elevadas de ácidos carboxílicos no espaço, moléculas capazes de ligar-se aos minerais e facilitar a libertação de metais como paládio e platina.
Para vários elementos, a lixiviação puramente química funcionou pior no espaço do que na Terra, enquanto as bactérias e fungos mantiveram desempenho semelhante nos dois ambientes. Segundo a coordenadora do estudo, Rosa Santomartino, isso indica que os microrganismos podem garantir taxas de extração constantes independentemente da gravidade, embora a eficácia varie conforme o metal analisado.
Implicações para a exploração espacial e para a indústria terrestre
Compreender como microrganismos interagem com rochas em microgravidade é considerado crucial para missões que pretendam explorar asteroides ou a superfície lunar. A possibilidade de enviar apenas biorreatores compactos, em vez de maquinaria de grande porte, pode reduzir de forma significativa o custo logístico de futuras operações de mineração fora da Terra.
Imagem: NewsUp Brasil
Além do benefício direto para programas espaciais, os autores apontam aplicações em ambientes terrestres com recursos limitados ou em áreas onde resíduos de mineração ainda contêm metais valiosos. A biomineração, processo já usado em algumas minas de cobre e ouro, pode ganhar métodos mais sustentáveis ao adaptar as descobertas obtidas no espaço.
Apesar do avanço, a equipa sublinha que a compreensão completa dos mecanismos moleculares envolvidos ainda exige mais investigações. As variáveis incluem tipo de microrganismo, composição da rocha e influência de fatores externos como radiação espacial. Uma explicação definitiva sobre o impacto da microgravidade no metabolismo microbiano pode demorar, mas os resultados atuais já orientam novas experiências e refinamento de protocolos.
O estudo reforça a viabilidade de recorrer a bactérias e fungos para extrair metais estratégicos, oferecendo uma alternativa de baixo consumo energético e menor volume de equipamentos. Com isso, a indústria espacial ganha um aliado biológico que ajuda a aproximar a mineração extraterrestre de cenários práticos, enquanto setores na Terra vislumbram processos mais económicos e responsáveis.






