Portugal lança programa de €20 milhões para reduzir disparidade salarial de mulheres em STEM

O governo português intensificou as ações para diminuir a diferença salarial entre homens e mulheres nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM). A iniciativa foi anunciada pela ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, durante a 70.ª sessão da Comissão sobre o Estatuto da Mulher (CSW70), realizada na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque.

Desigualdade persiste e cresce com a progressão na carreira

Segundo a ministra, Portugal enfrenta uma das discrepâncias mais altas de rendimentos em funções equivalentes dentro do setor STEM. O problema torna-se mais acentuado à medida que as profissionais avançam na hierarquia, ampliando a disparidade salarial nas fases de maior responsabilidade. Para Balseiro Lopes, essa realidade exige uma resposta rápida por envolver setores em expansão que oferecem postos de trabalho com remuneração elevada.

A autoridade alertou que, se não houver políticas públicas direcionadas, o país corre o risco de perpetuar desigualdades num mercado que continuará a gerar oportunidades qualificadas. A ministra recordou que o segmento tecnológico global é caracterizado, atualmente, por forte crescimento e projeções de longo prazo favoráveis, fatores que tornam a correção da disparidade ainda mais urgente.

Dados compilados pelas Nações Unidas indicam que apenas 35% dos graduados em ciências no mundo são mulheres. Na indústria de tecnologia, a presença feminina é ainda menor: 26% da força de trabalho. Entre os principais obstáculos identificados, destacam-se acesso limitado a financiamento para pesquisa, estereótipos de gênero enraizados e práticas discriminatórias.

Programa Nacional de Raparigas na STEM

Para enfrentar o problema, o Executivo lançou, em outubro de 2025, o Programa Nacional de Raparigas na STEM, dotado de mais de 20 milhões de euros. A medida envolve instituições de ensino superior e prevê um conjunto de ações que vão desde bolsas de estudo a campanhas de sensibilização, mentorias e parcerias com empresas tecnológicas.

O balanço preliminar dos primeiros seis meses de implementação será divulgado em abril, mês em que se celebra o Dia Internacional das Meninas nas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC). De acordo com a ministra, a adesão inicial das universidades foi considerada “muito expressiva”. O objetivo é criar mecanismos que incentivem meninas e jovens mulheres a escolher cursos em engenharia, programação, matemática aplicada e ciências exatas.

Os responsáveis pelo projeto esperam, ainda, melhorar o ambiente universitário e profissional, reduzindo barreiras de género e promovendo igualdade de oportunidades. Entre as metas está o aumento da participação feminina em linhas de investigação financiadas pelo Estado, bem como a criação de rede de modelos de referência para estudantes.

Meta: superar médias europeia e mundial

Portugal apresenta hoje uma proporção de mulheres em STEM ligeiramente superior à média da União Europeia, situada em torno de 22,3% a 22,4% da força de trabalho. Mesmo assim, o resultado está distante do desempenho de países líderes, como a Estónia, que atinge cerca de 27%. Balseiro Lopes afirma que a ambição do governo é “posicionar Portugal como referência regional e internacional” na redução das disparidades de género nas ciências e na tecnologia.

Além de impulsionar matrículas e carreiras femininas, a estratégia pretende criar condições para que as trabalhadoras permaneçam na área e atinjam cargos de chefia. A ministra ressaltou que políticas de retenção são tão importantes quanto as de entrada, uma vez que muitas profissionais abandonam o setor devido à escassez de apoio, à cultura corporativa adversa ou à falta de perspectivas de progressão.

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Imagem: ilustrativa

Avanços em outros setores e proteção às vítimas de violência

Durante a intervenção na ONU, a representante portuguesa citou progressos registados no sistema de justiça ao longo de pouco mais de cinco décadas de democracia. O país registra hoje maior número de mulheres na magistratura, no Ministério Público e na advocacia, refletindo o impacto de medidas de promoção da igualdade.

Além do foco em STEM, o Executivo português relatou investimentos na ampliação de canais de apoio a vítimas de violência doméstica e sexual. Entre as ações, destacam-se serviços de assistência psicológica, mecanismos de apoio financeiro e a oferta de informação em múltiplas línguas, permitindo o atendimento de mulheres estrangeiras residentes em território nacional.

Contexto internacional e importância econômica

A discussão sobre igualdade salarial em STEM ocorre numa conjuntura em que esse segmento vem assumindo papel central na inovação e no crescimento econômico. A Organização das Nações Unidas sustenta que a inclusão feminina nessas áreas não apenas corrige injustiças históricas, mas também amplia a diversidade de perspectivas em pesquisa e desenvolvimento, aumentando a qualidade das soluções tecnológicas.

Estudos internacionais mostram que empresas com equipas diversas registram ganhos de produtividade e criatividade superiores aos de organizações homogéneas. Apesar desse cenário, relatórios da ONU apontam que mulheres continuam sub-representadas em posições de liderança e enfrentam dificuldades de acesso a financiamento para projetos de investigação, reforçando a necessidade de iniciativas como a portuguesa.

Próximos passos

O relatório preliminar do Programa Nacional de Raparigas na STEM, previsto para abril, deverá indicar o número de participantes, as instituições envolvidas e os primeiros resultados em termos de matrículas e retenção. Os dados vão orientar ajustes estratégicos e a distribuição dos recursos ao longo dos próximos anos.

Em paralelo, o governo planeia apresentar novas medidas de incentivo à contratação de mulheres por empresas tecnológicas e de engenharia, bem como programas de formação contínua para profissionais que já atuam no setor. A combinação de ações educacionais, laborais e legislativas pretende acelerar a convergência salarial e melhorar indicadores de igualdade de género.

As autoridades portuguesas sublinham que o sucesso das políticas dependerá do comprometimento de universidades, empresas e sociedade civil. Ao valorizar o talento feminino em STEM, o país espera fortalecer a competitividade da economia, reduzir fossos salariais e contribuir para o cumprimento das metas de desenvolvimento sustentável definidas pela comunidade internacional.

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