Rádio reforça resposta a ciclone Gezani e ajuda a salvar vidas em Moçambique

imagem representando a Educacao Digital Brasil.

O avanço do ciclone tropical Gezani, previsto para atingir áreas do centro e do sul de Moçambique nesta sexta-feira, recolocou a rádio no centro das operações de emergência. Depois de inundações históricas que afetaram mais de 700 mil pessoas e provocaram cortes de energia em sequência, emissoras comunitárias e nacionais voltam a ser a via mais confiável de alerta à população, de coordenação entre agências humanitárias e de ligação com autoridades locais.

Ondas curtas para grandes emergências

Moçambique celebra o Dia Internacional do Rádio, em 13 de fevereiro, no mesmo momento em que lida com eventos climáticos extremos. Para o presidente moçambicano, Daniel Chapo, o meio radiofônico “forma, informa e capacita” a sociedade, sobretudo antes de desastres naturais. Durante entrevista concedida em Adis Abeba a pedido da ONU, o chefe de Estado destacou que, em crises, a cobertura radiofônica permite pré-posicionamento de recursos e decisões rápidas em comunidades remotas.

A relevância das transmissões ganha força num país onde boa parte da população não dispõe de acesso constante à internet nem a redes móveis estáveis. Em regiões rurais de difícil alcance, aparelhos portáteis alimentados por pilha fazem a diferença entre receber ou não mensagens de evacuação. A Rádio Nhamatanda, no centro do território, é citada como exemplo: nas últimas cheias, veiculou recomendações de prevenção, rotas de fuga e pontos de abrigo, reduzindo riscos para milhares de famílias.

A rádio também se torna ponte entre equipes internacionais e líderes comunitários. Por meio de boletins em línguas locais, órgãos como o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) traduzem alertas meteorológicos em orientações práticas: proteger documentos, reforçar coberturas de casas de barro, manter crianças longe de linhas elétricas caídas e armazenar água potável.

Resposta humanitária acelerada

Com a aproximação do Gezani, a comunidade de ajuda reforçou estoques de itens básicos em postos estratégicos. Segundo o porta-voz do Unicef em Inhambane, Guy Taylor, comprimidos de purificação de água, produtos químicos de desinfecção, medicamentos essenciais, materiais pedagógicos e tendas de alta performance já estão prontos para distribuição imediata. As tendas podem funcionar como salas de aula temporárias, centros de saúde ou abrigos, conforme a necessidade.

Taylor observa que famílias atingidas pelas inundações de semanas anteriores ainda não se recuperaram totalmente e permanecerão vulneráveis a impactos secundários, como surtos de doenças transmitidas pela água ou a destruição de plantações recém-replantadas. Por isso, o órgão pede a doadores internacionais que acelerem o envio de recursos adicionais, sob risco de a operação ficar subfinanciada em plena temporada de tempestades.

Do ponto de vista estrutural, o governo moçambicano e parceiros da ONU implementam o mecanismo “Aviso Prévio para Todos”, que combina monitoramento meteorológico, treinamento de comitês de gestão de riscos e disseminação de alertas por múltiplos canais. A coordenadora residente das Nações Unidas em Maputo, Catherine Sozi, defende que o aviso prévio não é “luxo técnico, mas imperativo de desenvolvimento” num dos países mais expostos às mudanças climáticas.

Sozi lembra que recursos do Fundo Central de Resposta a Emergências da ONU (CERF) foram liberados antes mesmo da chegada do Gezani, permitindo ações preventivas. A liberação antecipada ajudou a financiar barcos a motor, coletes salva-vidas, kits de cozinha e bolsas de transporte de recém-nascidos, distribuídos a comitês locais. Essas medidas, quando combinadas à programação constante das rádios, aumentam a probabilidade de moradores deixarem áreas de risco a tempo.

80 anos de Rádio ONU em campo

A mobilização atual coincide com os 80 anos da criação da Rádio das Nações Unidas, hoje integrada à redação da ONU News. O serviço, fundado em 1944 para difundir deliberações da instituição em múltiplos idiomas, conserva relevância na era digital justamente por operar também em frequências de fácil recepção. Em Moçambique, boletins produzidos em português e em línguas locais oferecem atualizações sobre níveis de rios, localização de abrigos e cumprimento de protocolos sanitários.

A articulação se estende a veículos comerciais e públicos. Autoridades de proteção civil enviam spots de 60 segundos sobre condução segura em estradas alagadas, enquanto especialistas do Instituto Nacional de Meteorologia participam ao vivo de programas matinais para explicar variações na rota do ciclone. Essa integração evita rumores e reduz a circulação de dados incorretos em redes sociais, onde o acesso continua limitado.

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Imagem: ilustrativa

Comunidades participam mais

Na prática, os Comitês de Gestão de Riscos de Desastres, formados por moradores, líderes religiosos e professores, recebem treinamento para interpretar mapas de chuvas, identificar pontos de deslizamento e organizar rotas de escape. Muitos deles utilizam rádios de baterias manuais, distribuídos por agências humanitárias, que funcionam mesmo sem eletricidade. As reuniões de planejamento costumam ocorrer em escolas, transformadas temporariamente em centros de evacuação, e suas decisões são retransmitidas em horários de pico de audiência local.

Essa estrutura de comunicação comunitária foi testada durante o ciclone Idai, em 2019, e aprimorada após cada evento subsequente. Dados da Direção Nacional de Gestão de Desastres indicam que municípios onde a cobertura radiofônica é consistente apresentam menores índices de mortes por afogamento ou soterramento, graças à evacuação antecipada e à partilha contínua de informações.

Desafios ainda presentes

Apesar dos avanços, persistem desafios logísticos. Danos em estradas podem atrasar o transporte de torres móveis e geradores que alimentam emissores de frequência modulada. Além disso, o roubo de cabos e a queda de postes provocam interrupções pontuais na rede elétrica, obrigando algumas rádios a operar com geradores a combustível, cujo abastecimento depende de rotas seguras. Parceiros internacionais negociam o envio de painéis solares para garantir autonomia energética em estações remotas.

Outro ponto crítico é a necessidade de mensagens segmentadas por gênero e faixa etária. Mulheres e meninas, frequentemente responsáveis por buscar água e lenha, enfrentam maior exposição a riscos. Para atingir esse público, programadoras incluem vozes femininas e conselhos específicos sobre higiene menstrual em situações de emergência. Crianças recebem alertas em formato de histórias curtas, adaptadas às aulas de rádio que muitas vezes suprem a falta de escolas funcionais.

Expectativa para a passagem do Gezani

Modelos meteorológicos indicam rajadas superiores a 120 km/h e chuvas intensas em províncias como Inhambane, Gaza e Sofala. A principal preocupação segue sendo enchentes repentinas em bacias já saturadas. Autoridades estaduais ativaram abrigos públicos, enquanto corporações de bombeiros voluntários reforçam planos de resgate em áreas de difícil navegação. Linhas telefônicas de emergência permanecem sobrecarregadas, o que faz da rádio o meio de comunicação mais estável para solicitações de socorro.

Caso a tempestade mantenha a trajetória atual, a retenção de água em represas pode transformar-se em fator de risco adicional. Operadores hidrelétricos, por intermédio de boletins radiofônicos, informam horários de descarga controlada para evitar rompimentos. Agricultores ribeirinhos já retiram gado de pastagens baixas seguindo instruções transmitidas desde a noite anterior.

Papel vital continua

Em um cenário de mudanças climáticas cada vez mais severas no sudeste africano, o uso estratégico da rádio mostra-se elemento crucial para salvaguardar vidas, bens e conquistas de desenvolvimento. À medida que novas tecnologias avançam, a experiência moçambicana evidencia que soluções tradicionais, de baixo custo e alta capilaridade, permanecem indispensáveis quando a urgência é comunicar rápido, com clareza e para todos.

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