A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) divulgou que 273 milhões de crianças permanecem fora da escola em todo o mundo. O dado foi apresentado durante encontro realizado em São Gabriel da Cachoeira, no estado do Amazonas, que reuniu agências da ONU, lideranças indígenas e representantes de diferentes níveis de governo. O objetivo central da reunião foi alinhar ações conjuntas na Amazônia Legal, com ênfase na defesa ambiental, no respeito aos direitos dos povos originários e na promoção de um desenvolvimento sustentável para a região.
Escala global da exclusão escolar
Segundo a Unesco, o número de 273 milhões de crianças afastadas do ambiente escolar reflete um desafio persistente para políticas públicas nacionais e internacionais. A agência classificou a educação como bem público essencial e reiterou que o acesso universal ao ensino é condição básica para a redução de desigualdades e para o avanço social. Ao destacar a dimensão do problema, a entidade colocou em evidência a urgência de medidas coordenadas, capazes de garantir matrícula, permanência e aprendizagem efetiva para todos os estudantes.
O levantamento da Unesco chama atenção para a disparidade de oportunidades entre diferentes regiões do planeta. Embora a organização não tenha apresentado no encontro um recorte por continentes ou países, o total divulgado evidencia que a exclusão escolar continua a atingir sobretudo populações vulneráveis, entre as quais crianças que vivem em áreas rurais, indígenas, refugiadas ou em situação de pobreza extrema.
Representantes da agência defenderam que governos, entidades civis e setor privado adotem estratégias combinadas para enfrentar o quadro. Entre as medidas sugeridas estão o fortalecimento de sistemas públicos de ensino, a destinação de recursos adequados ao orçamento educacional e a criação de programas específicos para grupos historicamente marginalizados. Também foi realçado o papel do acompanhamento pedagógico e do engajamento comunitário como fatores que contribuem para reduzir o abandono escolar.
Amazônia Legal: convergência entre proteção ambiental e direitos indígenas
O encontro em São Gabriel da Cachoeira ocorreu em meio a um cenário que exige respostas integradas para a Amazônia Legal. Localizado na margem do rio Negro, o município recebeu delegações de diferentes agências da ONU, além de autoridades federais, estaduais e municipais. Lideranças indígenas participaram ativamente das discussões, reforçando perspectivas locais sobre preservação ambiental e respeito a tradições culturais.
Durante as sessões, os participantes convergiram na meta de articular projetos que conciliem conservação da floresta, garantia de direitos territoriais e oportunidades econômicas sustentáveis para as comunidades amazónicas. Entre os pontos debatidos estiveram a necessidade de fortalecer a governança ambiental, ampliar a fiscalização contra atividades ilegais e incentivar iniciativas de bioeconomia que gerem renda sem colocar em risco a biodiversidade.
A Unesco ressaltou que a cooperação técnica entre agências da ONU e autoridades brasileiras pode potencializar políticas públicas já existentes, evitar sobreposição de programas e direcionar investimentos para áreas prioritárias. Sobretudo, a agência enfatizou que a inclusão dos povos indígenas nos processos decisórios é condição indispensável para o sucesso de qualquer estratégia na região.
Segundo os participantes, reforçar a educação em comunidades amazônicas é parte fundamental desse esforço. A expansão de escolas indígenas bilíngues, a formação de professores locais e a valorização de práticas culturais tradicionais foram citadas como caminhos para conciliar conhecimento científico e saberes ancestrais, oferecendo às novas gerações ferramentas que permitam atuar tanto em seus territórios quanto em contextos urbanos, caso desejem.
Imagem: ilustrativa
Tecnologia na educação: mitos, riscos e diretrizes éticas
Além de apresentar números globais sobre a exclusão escolar, a Unesco discutiu os impactos da tecnologia no campo educacional. A agência alertou para mitos frequentes que associam o simples uso de dispositivos digitais à melhoria automática da aprendizagem. Representantes destacaram que a adoção de ferramentas tecnológicas sem critérios pedagógicos claros pode agravar desigualdades, sobretudo em regiões com acesso precário à internet ou falta de formação de professores.
Entre os riscos apontados estão a dependência excessiva de plataformas comerciais, a coleta indiscriminada de dados dos estudantes e a ampliação de disparidades entre escolas públicas e privadas. A Unesco defendeu uma abordagem ética e humana, pautada em três eixos: proteção de dados pessoais, equidade de acesso e alinhamento das soluções digitais com objetivos educacionais bem definidos.
Segundo a agência, políticas que colocam a tecnologia a serviço do bem público devem priorizar conectividade inclusiva, conteúdos de qualidade e capacitação docente. Para isso, a Unesco propõe que governos estabeleçam marcos regulatórios que impeçam práticas comerciais abusivas no setor educacional e que assegurem transparência na contratação de serviços digitais.
Durante o encontro, especialistas reforçaram que a tecnologia pode ser aliada na superação de barreiras geográficas, especialmente em áreas remotas da Amazônia. No entanto, enfatizaram que soluções de aprendizagem a distância precisam vir acompanhadas de infraestrutura adequada, apoio pedagógico contínuo e respeito às especificidades culturais de cada comunidade.
A proposta debatida pelos participantes envolve integrar tecnologia, formação de professores e materiais didáticos contextualizados, de modo que a inovação digital seja instrumento complementar, nunca substituto, do vínculo entre educador e estudante. O princípio apresentado é que a educação, como bem público, deve permanecer centrada na pessoa, não nos dispositivos.
O encontro de São Gabriel da Cachoeira encerrou-se com a indicação de que as agências da ONU, em parceria com governos e organizações locais, elaborarão nas próximas semanas um plano de trabalho detalhado para execução das ações discutidas. A Unesco reafirmou o compromisso de monitorar o progresso das iniciativas e de continuar mobilizando a comunidade internacional para reduzir o número de crianças fora da escola e proteger a Amazônia, alinhando desenvolvimento sustentável, direitos indígenas e ética no uso da tecnologia educacional.






