Neste 5 de maio, a Organização das Nações Unidas celebrou o Dia Mundial da Língua Portuguesa enfatizando a relevância do idioma para o multilateralismo, o diálogo intercultural e a consolidação da paz. A data, oficializada pela UNESCO em 2019, homenageia um universo de cerca de 300 milhões de falantes distribuídos por quatro continentes e reforça a influência crescente da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que completa 30 anos em julho.
Multilinguismo como base para a cooperação internacional
Em mensagem oficial, o secretário-geral da ONU, António Guterres, classificou o multilinguismo como pilar essencial da compreensão mútua na atual conjuntura de fragmentação global. Para o dirigente, a diversidade de sotaques e variações regionais, “de São Paulo a Díli, de Lisboa a Maputo”, representa a força renovadora de um idioma que une povos e culturas distintas. Guterres recordou ainda declarações anteriores nas quais atribui ao português um papel determinante na promoção de uma cultura de paz, ao funcionar como ferramenta comum entre nações com desafios e realidades distintas.
A data foi marcada por diversas iniciativas nos escritórios da ONU e de agências especializadas. Debates, exposições e produções audiovisuais destacaram a contribuição de escritores, artistas, investigadores e influenciadores digitais que utilizam a língua portuguesa para ampliar o alcance de temas como desenvolvimento sustentável, direitos humanos e combate às desigualdades.
CPLP completa três décadas de integração
O trigésimo aniversário da CPLP ganhou destaque nas celebrações deste ano. À frente da presidência rotativa, Timor-Leste reafirmou o compromisso com a consolidação democrática, a cooperação técnica e o bem-estar comum dos Estados-membros. Em pronunciamento nas Nações Unidas, o embaixador timorense Dionísio Babo Soares sublinhou que o português transcende a condição de idioma oficial para se tornar elo de tradições diversas, consolidando-se como instrumento de diplomacia e aproximação política.
Maria de Fátima Jardim, secretária-executiva da CPLP, relembrou que a língua portuguesa “costura oceanos” e amplia oportunidades de cidadania, educação e negócios. Segundo ela, a mobilização de Estados-membros, observadores associados, consultivos e diásporas demonstra a vitalidade de uma comunidade unida por um patrimônio linguístico em constante evolução.
Jovens revelam impacto pessoal e social do idioma
A programação da ONU incluiu depoimentos de falantes espalhados pelo mundo. A influenciadora digital síria Nabila Yousif, radicada no Brasil, descreveu o aprendizado do português como “portal para uma nova vida”. Ao chegar ao país, dedicou-se a estudos intensivos, assistindo telenovelas e ouvindo música popular para acelerar a fluência. Hoje, utiliza as redes sociais para produzir conteúdo que conecta cultura árabe e brasileira.
O angolano Baptista Miranda, também residente no Brasil, destacou o valor identitário do idioma ao explicar a amigos e seguidores que vários países africanos utilizam oficialmente o português. Para ele, divulgar essa informação ajuda a combater estereótipos e a valorizar a pluralidade de sotaques, ritmos e expressões que caracterizam a lusofonia.
Português na diplomacia e na economia globais
Reconhecido como a quinta língua mais usada no espaço digital, o português tem ampliado presença em organismos internacionais, plataformas de ensino à distância e serviços de tecnologia de voz. A expansão demográfica de países africanos lusófonos e o papel do Brasil como maior economia da América Latina reforçam projeções de crescimento do número de falantes nas próximas décadas.
Estudos citados pela ONU indicam que a circulação de bens culturais em português movimenta setores como audiovisual, literatura, música e videojogos, favorecendo intercâmbio económico e turístico. A adoção do idioma em acordos de cooperação académica também impulsiona a mobilidade estudantil entre universidades dos nove Estados-membros da CPLP.
Educação multilíngue e desafios futuros
No campo educacional, especialistas ouvidos durante os debates alertaram para a necessidade de políticas que garantam alfabetização de qualidade em áreas rurais e comunidades indígenas, sobretudo em países com grande diversidade linguística interna. Iniciativas de formação de professores, produção de materiais didáticos adaptados e uso de tecnologia têm sido apontadas como estratégias prioritárias.
Imagem: ilustrativa
Outro desafio recorrente é a preservação de línguas locais minoritárias diante do avanço do português como idioma de ensino e administração. Organizações da sociedade civil sugerem programas de educação bilíngue que valorizem patrimônios culturais regionais sem comprometer a proficiência na língua oficial.
Papel estratégico nas agendas da ONU
Durante a sessão comemorativa em Nova Iorque, diplomatas de países lusófonos reiteraram o compromisso coletivo com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). O uso do português em relatórios, eventos e campanhas facilita a disseminação de informações sobre clima, igualdade de género e segurança alimentar para milhões de cidadãos.
Representantes do Departamento de Comunicação Global da ONU acrescentaram que a produção de conteúdos em português, por meio de plataformas como ONU News, amplia o alcance geográfico das mensagens institucionais e fortalece a transparência das ações multilaterais. Neste contexto, a língua é vista como ativo estratégico para engajar públicos emergentes na África, na Ásia e na América Latina.
Reconhecimento formal e projeções
Desde 2009, o Dia da Língua Portuguesa já era celebrado pela CPLP. A oficialização pela UNESCO, há cinco anos, conferiu estatuto global às comemorações e estimulou parcerias com setores privados, fundações culturais e meios de comunicação. Relatórios recentes apontam crescimento de cursos de português em universidades estrangeiras e plataformas de aprendizagem online.
Com base em dados demográficos, especialistas projetam que, até 2100, o conjunto de falantes poderá ultrapassar 400 milhões, impulsionado sobretudo pelo dinamismo populacional de Angola e Moçambique. A tendência reforça a necessidade de investimentos em edição de conteúdos, produção científica e inovação tecnológica que incorporem variações regionais e vocabulário técnico atualizado.
Visão comum de futuro
Ao encerrar as atividades do Dia Mundial da Língua Portuguesa na sede das Nações Unidas, António Guterres reiterou que a riqueza da diversidade linguística constitui alicerce para sociedades mais inclusivas. O dirigente sublinhou que preservar, promover e valorizar o português significa fortalecer pontes de diálogo indispensáveis à construção de um futuro sustentável e pacífico.
As celebrações deste 5 de maio evidenciaram, assim, a capacidade do idioma de agregar comunidades distantes, fomentar o intercâmbio de conhecimento e impulsionar iniciativas económicas. Em contexto de desafios transnacionais cada vez mais complexos, a língua portuguesa reafirma-se como instrumento de participação ativa no cenário global.






