Crianças na Suíça revelam palavras favoritas e desafios do português no Dia Mundial da Língua Portuguesa

Educação

No Cantão de língua francesa da Suíça, três estudantes entre cinco e oito anos falaram sobre o que mais gostam — e o que consideram mais difícil — na aprendizagem do português. As entrevistas foram realizadas no âmbito do Dia Mundial da Língua Portuguesa, celebrado em 5 de maio, e mostram como filhos de famílias brasileiras ou mistas mantêm vínculos afetivos e culturais por meio do idioma.

Aprendizado acontece em associação fundada há 30 anos

Joachim Petit, de 5 anos, Mateus Maranzana Caliman, de 6, e Clara Ruthes Rolim, de 8, frequentam aulas de português na Associação Raízes, entidade criada há três décadas para ensinar língua e cultura brasileiras a crianças da região de Genebra. O contato formal com o idioma ocorre fora do currículo escolar regular, que é ministrado em francês.

Segundo o Escritório Federal de Estatística da Suíça, o português é a segunda maior língua estrangeira do país, utilizado por 3,7% da população como primeira ou segunda língua. Fica atrás apenas do inglês, com 7% de utilizadores nos lares suíços.

Cada criança associa o idioma a família, afeto e curiosidade

Clara, que vive em Saint-Sulpice com os pais e o irmão, define o português como “casa e afeto”. Com parentes em Mafra, Santa Catarina, e Curitiba, Paraná, ela valoriza o idioma porque permite conversar com avós, tios e primos no Brasil. Em casa, a comunicação diária é em português; na escola, em francês.

Mateus, residente em Lausanne, tem motivações semelhantes. Para ele, falar português possibilita entender recados dos pais, planejar brincadeiras e manter diálogo com os avós que moram em São Paulo. O menino relembra que a competência linguística também o ajuda a ler gibis e outros livros no idioma.

Filho de pai brasileiro, com família em Fortaleza, e mãe francesa, Joachim associa diretamente o idioma ao país de origem paterna: “Brasil, sil, sil, sil”. O menino menciona que português é “a língua do papai, da titia, da vovó”.

Palavras preferidas, divertidas e mais difíceis

Durante as entrevistas, as crianças listaram vocábulos que despertam diferentes emoções:

Clara
• Preferidas: “amor”, “saudade” e “arroz com feijão”
• Mais divertida: “minhoca”
• Mais difíceis: “paralelepípedo” e “ornitorrinco”

Mateus
• Preferidas: “bananinha”, “paçoca”, “pirulito” e “balinha”
• Mais engraçada: “cacareco”
• Mais difíceis: “paralelepípedo”, “Petrobras” e “otorrinolaringologista”

Joachim
• Preferida: “trem”
• Mais divertida: “bom dia, tristeza”
• Mais difícil: “viravolta”

Crianças na Suíça revelam palavras favoritas e desafios do português no Dia Mundial da Língua Portuguesa - Imagem do artigo original

Imagem: ilustrativa

Dia Mundial da Língua Portuguesa reúne oito países e diásporas

Instituída pela UNESCO, a data de 5 de maio destaca a relevância do português em quatro continentes. O idioma é oficial em Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné-Equatorial, Moçambique, Portugal e Timor-Leste. Também mantém estatuto oficial em Macau, região administrativa especial da China, além de estar presente em comunidades de emigrantes como a formada por brasileiros na Suíça.

Motivação familiar impulsiona a aprendizagem

O relato dos três estudantes revela um padrão: o desejo de comunicar-se com parentes mantém vivas as aulas de português em território suíço. A possibilidade de viajar ao Brasil sem barreiras linguísticas, ler materiais infantis e participar de tradições culturais são citadas como razões determinantes.

A coordenadora da Associação Raízes — nome não citado nas entrevistas — explica que o programa prioriza atividades lúdicas, o que facilita a fixação de vocabulário e a compreensão gramatical. As listas de palavras favoritas ou difíceis costumam surgir em rodas de conversa justamente para estimular a autonomia das crianças no uso do idioma.

Desafios específicos do vocabulário infantil

Termos longos ou com combinações fonéticas pouco usuais em francês lideram o ranking das dificuldades. “Paralelepípedo” aparece nas respostas de Clara e Mateus; “otorrinolaringologista” e “ornitorrinco” exigem articulações que nem sempre existem na língua local. Já palavras curtas, associadas a comida ou brincadeira — casos de “pirulito” e “paçoca” — figuram entre as preferidas pela sonoridade e pelo significado afetivo.

Contexto estatístico reforça a importância do ensino complementar

Embora o português não faça parte do currículo regular nas escolas públicas de Genebra ou Vaud, a concentração de falantes motiva iniciativas comunitárias como a Associação Raízes. O percentual oficial de 3,7% supera o de outras línguas migrantes e cria demanda por materiais didáticos específicos, formação de professores bilíngues e eventos culturais que celebrem a herança brasileira.

Celebração global fortalece identidade linguística

Em 2023, o Instituto Camões estimou que mais de 260 milhões de pessoas utilizam o português no mundo. A data de 5 de maio serve para reforçar políticas de promoção, bolsas de estudo e cooperação entre países lusófonos. Na Suíça, as atividades incluem oficinas de música, sessões de contação de histórias e exposições de literatura infantil, complementando o trabalho permanente de associações locais.

Expectativas futuras das crianças entrevistadas

Questionada sobre metas pessoais, Clara afirma que pretende “ler livros inteiros em português sem ajuda”. Mateus sonha em viajar a São Paulo para “falar com todo mundo na rua”. Joachim deseja conduzir seus brinquedos “em um trem de verdade” quando visitar o Ceará, usando a palavra preferida em contexto autêntico.

Conclusão: idioma como elo transnacional

Os depoimentos de Clara, Mateus e Joachim ilustram o papel do português como ponte entre gerações e territórios. Mesmo vivendo em ambiente majoritariamente francófono, eles reconhecem valor prático e emocional na manutenção da língua da família. A iniciativa de entidades como a Associação Raízes, junto com a visibilidade proporcionada pelo Dia Mundial da Língua Portuguesa, reforça a continuidade desse vínculo no cotidiano de crianças brasileiras ou luso-descendentes na Suíça.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *