ONU exibe mostra que celebra Dia da Língua Portuguesa e 30 anos da CPLP

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A sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, inaugurou em 5 de maio a exposição fotográfica “Gentes e Terras”, composta por 16 imagens que retratam povos e paisagens dos Estados-membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). A mostra marca o Dia Mundial da Língua Portuguesa e abre uma série de ações comemorativas pelos 30 anos da organização, a serem completados em 17 de julho.

Exposição apresenta diversidade lusófona em 16 fotografias

Cada país lusófono selecionou duas fotografias para representar a pluralidade cultural e geográfica do universo falante de português, distribuído por quatro continentes. Entre os registros expostos estão:

• Crianças observando o pôr-do-sol na Baía de Díli, em Timor-Leste;
• A Igreja Matriz de Santa Efigênia, em Ouro Preto, Brasil;
• As Cataratas de Calandula, em Angola;
• O Vulcão do Fogo, em Cabo Verde;
• A Costa Vicentina, em Portugal.

A curadoria procurou evidenciar, em apenas 16 imagens, a extensão geográfica e a riqueza cultural de uma comunidade que, segundo a CPLP, ultrapassa 300 milhões de falantes. As fotografias podem ser vistas até 8 de maio no espaço cultural que abriga os painéis Guerra e Paz, do artista brasileiro Cândido Portinari, frequentado diariamente por delegações diplomáticas e visitantes da organização.

O objetivo central da exposição é reforçar a ideia de “união na diversidade”, lema recorrente da CPLP, ao conectar cenários distantes por meio de um idioma comum. A iniciativa também pretende destacar o português como língua de trabalho das Nações Unidas, presença que, segundo a entidade lusófona, tem ganhado relevância política nas últimas décadas.

Cerimônia reúne António Guterres e representantes da CPLP

As comemorações prosseguem em 7 de maio, quando o secretário-geral da ONU, António Guterres, participa de uma cerimônia oficial na entrada do edifício-sede. O encontro contará com embaixadores dos nove países que integram a CPLP e será conduzido pelo presidente rotativo da comunidade, o embaixador Dionísio Babo Soares, de Timor-Leste.

Em mensagem enviada de Lisboa, a secretária-executiva da CPLP, Maria de Fátima Jardim, salientou o crescimento da organização e a elevação do perfil internacional do idioma: “Gostaria de destacar a crescente importância da nossa língua através de iniciativas que promovam a língua portuguesa como instrumento de afirmação dos objetivos para uma comunidade promissora”.

Desde a criação da CPLP, em 1996, o português passou a ser visto pelos membros como elemento estratégico em negociações multilaterais, intercâmbio académico e cooperação económica. A difusão cultural, por sua vez, ganhou impulso com eventos anuais como o 5 de maio, data reconhecida em 2019 pela UNESCO como Dia Mundial da Língua Portuguesa.

Mais de 30 Estados observadores reforçam alcance global

Ao longo de três décadas, a CPLP expandiu-se para além dos seus nove integrantes — Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. Atualmente, a comunidade conta com mais de 30 Estados observadores, entre eles Estados Unidos, França, Japão, Geórgia, Reino Unido e Catar, país que lidera o grupo de associados.

O estatuto de observador permite que governos de fora do espaço lusófono participem de reuniões, projetos de cooperação e programas de intercâmbio, ampliando redes de comércio, educação e ciência. Segundo a CPLP, a adesão crescente de países externos demonstra o interesse em aproximar-se de um mercado potencial que soma centenas de milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto consolidado.

A linguista e diplomata brasileira Lauro Ramos, que acompanha a evolução da comunidade desde a fundação, observa que “o português tornou-se vetor de aproximação entre economias emergentes e regiões estratégicas, facilitando o diálogo em áreas como energia, agricultura e inovação tecnológica”. Embora o foco permaneça nos laços históricos e culturais, a vertente económica ganhou espaço nos últimos anos, motivando o ingresso de novos observadores.

Agenda cultural estende celebrações até julho

Além da exposição em Nova Iorque, cada uma das capitais lusófonas programou iniciativas relacionadas ao aniversário da CPLP. Seminários sobre políticas linguísticas, concertos com repertório comum e lançamentos de edições bilingues integram o calendário, que culminará em 17 de julho com uma sessão solene em Lisboa. Nesta data, chefes de Estado e de governo deverão aprovar uma declaração sobre metas de cooperação para a próxima década.

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Imagem: ilustrativa

Em Moçambique, ex-colónia portuguesa que adotou o idioma como língua oficial após a independência, o governo local organizará debates sobre ensino bilíngue e preservação de línguas autóctones. No Brasil, o Ministério das Relações Exteriores prevê um concurso literário dirigido a jovens autores dos nove países da comunidade, incentivando a circulação de novas vozes e a consolidação de um mercado editorial transnacional.

Em Cabo Verde, as comemorações incluirão atividades em crioulo cabo-verdiano, evidenciando a convivência do português com outras línguas locais. Já em Portugal, o Instituto Camões divulgará dados atualizados sobre a expansão do ensino de português no estrangeiro, projeto que atualmente abrange mais de 80 países.

Língua portuguesa reforça presença nas Nações Unidas

A exposição “Gentes e Terras” também chama atenção para o uso crescente do português em documentos e reuniões da ONU. Embora a organização reconheça seis idiomas oficiais — árabe, chinês, espanhol, francês, inglês e russo —, o português vem ganhando espaço como língua de trabalho nos escritórios de Genebra, Viena e Nairobi, graças à atuação das delegações da CPLP.

O próprio secretário-geral, António Guterres, tem incentivado o emprego do idioma em discursos e eventos paralelos, atitude que, segundo diplomatas, amplia a visibilidade de questões colocadas pelos países lusófonos na agenda internacional. Temas como segurança alimentar, mudanças climáticas, energias renováveis e igualdade de género são recorrentes em resoluções co-patrocinadas por Estados da CPLP.

De acordo com levantamento divulgado pelo Departamento de Comunicação Global da ONU, o número de intervenções em português registradas nas sessões da Assembleia Geral cresceu 27% entre 2018 e 2023. A expansão também se reflete em plataformas digitais: o portal ONU News em português alcançou, em 2023, média mensal de 1,5 milhão de visualizações, posicionando-se entre as versões linguísticas mais acessadas.

Fotografia como ponte cultural

A escolha de uma exposição fotográfica para abrir a programação de aniversário busca valorizar a imagem como meio de comunicação universal, capaz de ultrapassar fronteiras linguísticas. Segundo os organizadores, a curadoria baseou-se em critérios de representatividade geográfica, impacto visual e equilíbrio entre retratos humanos e paisagens naturais.

Os painéis foram instalados em totens que formam um corredor visual logo após a entrada principal do edifício-sede, permitindo que delegados e visitantes apreciem as fotografias durante a circulação diária. Responsável pela montagem, a equipe do Departamento de Assuntos Gerais da ONU utilizou iluminação de LED de baixo consumo, em linha com a política de sustentabilidade adotada pelo Secretariado.

Para Dionísio Babo Soares, presidente rotativo da CPLP, “a exposição sintetiza a ideia de que a língua portuguesa é feita de rostos e lugares”. Ao lado de Guterres, ele destacou a relevância de celebrar a trajetória da comunidade justamente na instituição que acolhe negociações multilaterais decisivas para o futuro dos seus povos.

Com agenda que se estende até julho, a CPLP pretende aproveitar a visibilidade proporcionada pela ONU para reforçar projetos de cooperação, atrair novos parceiros e consolidar o português como veículo de diálogo global. A exposição “Gentes e Terras” marca, assim, o ponto de partida simbólico de um semestre dedicado a sublinhar a vitalidade de uma língua que avança em número de falantes e em influência diplomática.

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