Fraunhofer cria sola de tênis programável com um único material e foco em reciclagem

Imagem representando tecnologia e inovação

Pesquisadores do Instituto Fraunhofer para Tecnologia Química (ICT), na Alemanha, apresentaram uma abordagem que dispensa a combinação tradicional de diversos componentes na sola de tênis esportivos. A equipa demonstrou que é possível obter zonas com propriedades mecânicas distintas usando apenas um material base, abrindo caminho para calçados mais fáceis de fabricar e de reciclar.

Estrutura “programável” substitui misturas de materiais

Normalmente, um sapato de corrida reúne vários polímeros, espumas e aditivos para acomodar solicitações diferentes em calcanhar, entressola e ponta. No novo conceito, todas essas zonas são geradas a partir de um único elastômero de copolímero termoplástico. A variação de rigidez e amortecimento é alcançada por meio de geometrias específicas — nervuras, ranhuras ou saliências — que “programam” o comportamento mecânico sem recorrer a camadas extras.

Christof Hubner, integrante do projeto, afirmou que o trabalho comprova a viabilidade do “monomaterial programável” em produtos de uso diário de alto desempenho. A estratégia elimina processos de colagem entre partes incompatíveis, reduz etapas de produção e simplifica a logística de fim de vida.

Processo de fabricação em folhas termoformadas

A pesquisa adotou folhas de copolímero termoplástico como ponto de partida. O material é aquecido e moldado a vácuo, etapa que define a estrutura tridimensional responsável pelas diferenças funcionais entre as regiões da sola. Após a termoformagem, várias folhas são empilhadas e unidas, resultando numa peça única que apresenta a mesma configuração interna e externa.

Essa arquitetura permite absorver impacto no calcanhar, oferecer transição macia na entressola e garantir propulsão mais firme na ponta sem conteúdo heterogéneo. Além da versatilidade, o elastômero escolhido suporta novos ciclos de processamento, o que se mostra crucial para a reciclagem.

Duas rotas para recuperar matéria-prima de alto valor

Ao projetar a solução, a equipa do Fraunhofer também avaliou cenários de pós-consumo. O primeiro método utiliza solventes para dissolução seletiva, separando contaminantes e gerando poliéster de alta pureza. Já a segunda rota recorre à pirólise para decompor os polímeros em moléculas menores, seguida de separação e síntese química. Dessa forma, é possível recuperar insumos como o ácido tereftálico, empregado na produção de resinas virgens.

Segundo o pesquisador Maximilian Wende, os testes demonstraram que se pode extrair poliéster puro mesmo de tênis compostos por materiais diversos. O resultado reforça que reciclar sem comprometer a qualidade final deixou de ser incompatível com o setor de calçados.

Potenciais impactos industriais e ambientais

Ao remover camadas adesivas e espumas distintas, os fabricantes podem simplificar linhas de montagem, reduzir resíduos e otimizar o uso de energia. A padronização em um único polímero diminui custos de inventário e facilita reparos ou reaproveitamento pós-uso. Além disso, a recuperação química de alta eficiência promove um ciclo fechado, reduzindo a dependência de matérias-primas fósseis.

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Imagem: Tecnologia Inovação Notícias

Embora o estudo tenha se concentrado em tênis esportivos, a metodologia pode ser estendida a solados de outros tipos de calçado ou mesmo a componentes de proteção onde múltiplas funções mecânicas são exigidas. O princípio de “programação” estrutural do material também se adapta a processos de impressão 3D e laminação, ampliando as possibilidades de design.

Próximos passos e desafios

Os cientistas indicam que testes adicionais em larga escala devem avaliar durabilidade, conforto e comportamento sob diferentes condições climáticas. A adoção comercial dependerá da resposta de marcas esportivas e da compatibilidade com sistemas de produção existentes. Questões regulatórias relacionadas a aditivos, segurança do usuário e certificações de sustentabilidade também serão consideradas.

Outra frente envolve a otimização das rotas de reciclagem. A equipa investiga ajustes de temperatura, tempo de residência e catalisadores na pirólise para aumentar o rendimento químico e reduzir o consumo energético. No caso do processo com solventes, refinamentos visam diminuir o uso de reagentes e viabilizar unidades modulares em centros de recolha de calçados usados.

Contexto da pesquisa

O Instituto Fraunhofer para Tecnologia Química integra a rede Fraunhofer, composta por mais de 70 unidades focadas em pesquisa aplicada na Alemanha. O projeto dos calçados insere-se numa linha de investigação que explora plásticos de engenharia capazes de combinar alto desempenho e circularidade. A apresentação dos resultados ocorreu em 8 de maio de 2026, data que marcou a divulgação das conclusões iniciais.

Com o avanço, o setor de artigos esportivos ganha um exemplo prático de design para reciclagem, conceito cada vez mais valorizado por consumidores e legislações ambientais. Caso a tecnologia alcance produção em série, pode reforçar metas globais de redução de resíduos e emissões de carbono na indústria têxtil e de calçados.

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