Ondas terahertz revelam atividade interna de chips em tempo real

Uma equipa internacional de investigadores demonstrou a viabilidade de observar, do exterior e em tempo real, os processos elétricos que ocorrem dentro de chips totalmente encapsulados. O avanço foi alcançado com radiação de terahertz (THz), faixa do espectro eletromagnético não ionizante que já vinha sendo estudada para aplicações médicas e de segurança. Pela primeira vez, o método permitiu monitorar deslocamentos de cargas minúsculas em dispositivos semicondutores em funcionamento, sem interrupção, desmontagem ou contato físico.

Como a radiação de terahertz ultrapassa as barreiras dos encapsulados

Depois que um circuito integrado é fechado em sua embalagem protetora, verificar defeitos ou acompanhar o desempenho em condições ambientais variáveis costuma exigir técnicas invasivas, uso de sondas elétricas ou a interrupção do funcionamento do componente. A radiação de terahertz, que se situa entre as micro-ondas e a luz infravermelha, atravessa diversos materiais plásticos e compósitos comuns em encapsulamentos sem causar danos ou alterar o estado do chip. Em teoria, essas ondas poderiam detectar variações na densidade de elétrons nas junções PN dos transistores, porém a resolução necessária é inferior ao próprio comprimento de onda, na casa de centenas de micrómetros.

Para superar esse obstáculo, os cientistas criaram um transceptor de quadratura homódino, sensível o bastante para distinguir o sinal emitido pela atividade elétrica interna do ruído de fundo inerente à banda THz. Ao combinar a fonte e o receptor em um único sistema, tornou-se viável focalizar áreas submilimétricas do dispositivo e captar flutuações de corrente que ocorrem a frequências próximas de 275 GHz.

Detector de alta sensibilidade elimina o ruído e isola o sinal útil

Segundo o professor Withawat Withayachumnankul, da Universidade de Adelaide (Austrália), a maior limitação das abordagens tradicionais é a necessidade de expor o circuito ou desligar o aparelho analisado. O novo detector contorna esse problema ao cancelar componentes espúrios do espectro, permitindo a medição não invasiva de fenômenos eletrônicos internos. Nos experimentos, alvos com dimensões inferiores ao comprimento de onda foram avaliados com óptica THz convencional, demonstrando que mesmo estruturas compactas podem ser monitoradas sem modificar projetos existentes.

A configuração baseia-se em interferometria de quadratura: o sinal de referência é comparado, em fase e amplitude, com o eco proveniente do chip. Diferenças mínimas na densidade de portadores dentro das junções alteram o campo eletromagnético refletido, gerando uma assinatura detectável. Os dados resultantes traduzem-se em mapas que indicam regiões ativas, potenciais falhas e comportamento sob diferentes tensões ou temperaturas.

Aplicações industriais e de segurança de hardware

O procedimento abre caminho para inspeções durante a produção de semicondutores, teste de qualidade em linha e diagnóstico em equipamentos finais. Em ambientes onde o acesso físico é restrito, como satélites, sistemas de telecomunicações ou infraestrutura crítica, a capacidade de acompanhar a integridade do hardware remotamente reduz o risco de falhas catastróficas e facilita a manutenção preditiva.

Chitchanok Chuengsatiansup, da Universidade de Potsdam (Alemanha), destaca que o monitoramento remoto e não destrutivo contribui para identificar componentes comprometidos, seja por desgaste natural, defeito de fabricação ou adulteração intencional. Além disso, a tecnologia pode ser integrada a plataformas de autodiagnóstico, permitindo que dispositivos complexos avaliem o próprio estado e informem necessidades de reparo antes que erros afetem o usuário final.

Caminho para chips de próxima geração autoverificáveis

Embora a demonstração inicial tenha focado em frequências próximas a 275 GHz, a banda THz cobre intervalo muito mais amplo, oferecendo margem para aumentar a resolução e reduzir o tempo de aquisição de dados. À medida que fontes compactas e receptores mais sensíveis forem desenvolvidos, espera-se expandir o método a circuitos com geometrias ainda menores, compatíveis com processos de fabricação abaixo de dez nanómetros.

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Imagem: NewsUp Brasil

O grupo de pesquisa ressalta que melhorias na taxa de varredura poderão possibilitar análises em tempo real durante etapas críticas da litografia ou encapsulamento, detectando defeitos microestruturais que afetam o rendimento final. Em paralelo, a integração de algoritmos de aprendizagem automática promete acelerar a interpretação dos mapas de atividade, correlacionando padrões específicos com tipos de falhas ou estresse térmico.

Principais desafios técnicos ainda em aberto

Apesar do sucesso experimental, alguns obstáculos precisam ser superados antes da adoção industrial em larga escala. A montagem de um sistema THz de laboratório exige alinhamento preciso e calibração frequente, o que pode elevar custos. Além disso, a penetração da radiação depende das características do encapsulante; materiais metálicos ou ligas de alta densidade bloqueiam as ondas, limitando a aplicação a dispositivos com invólucros plásticos ou cerâmicos transmissivos.

Também será necessário padronizar parâmetros de medição, como largura de banda, níveis de potência e distância de operação, de modo a garantir resultados reprodutíveis em linhas de produção distintas. Outro ponto pendente envolve a compatibilidade eletromagnética: equipamentos industriais com emissões intensas podem introduzir interferências na faixa de terahertz, exigindo blindagem ou filtragem dos sinais de interesse.

Perspetivas de mercado e próximos passos da investigação

Empresas dos setores automotivo, de telecomunicações e de defesa acompanham o desenvolvimento, pois dependem cada vez mais de circuitos integrados críticos cuja falha compromete sistemas inteiros. A expectativa é que, em médio prazo, versões compactas do transceptor de quadratura cheguem a laboratórios de teste de fabricantes de chips, proporcionando maior visibilidade sobre o interior de encapsulados sem sacrificar unidades para inspeção destrutiva.

Os responsáveis pelo estudo planejam explorar variações de frequência e modulação para maximizar a relação sinal-ruído, além de miniaturizar o hardware para operação em campo. Também pretendem avaliar a resposta de componentes sujeitos a ciclos de temperatura ou radiação ionizante, cenários típicos de aplicações aeroespaciais.

Ao demonstrar que é possível “enxergar” a eletrônica interna de forma totalmente externa e sem interromper a atividade, a pesquisa inaugura uma categoria de ferramentas de metrologia que poderá influenciar tanto o design de futuras gerações de chips quanto as estratégias de manutenção de equipamentos eletrônicos distribuídos globalmente.

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