A realização da Copa do Mundo de 2026, distribuída entre Canadá, Estados Unidos e México, colocou o sarampo de volta ao centro das preocupações sanitárias nas Américas. A região perdeu mais uma vez o selo de eliminação da doença depois de o Canadá não conseguir interromper a transmissão por 12 meses consecutivos, condição exigida para manter o certificado de área livre do vírus.
Retrocesso na certificação regional
Em 2016, as Américas tornaram-se a primeira região do planeta a ser declarada livre do sarampo. O status, porém, foi revogado em 2019, recuperado brevemente em abril de 2024 e novamente retirado agora, após avaliação que constatou circulação contínua no Canadá. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), a perda do certificado revela fragilidades nas coberturas vacinais e reforça o alerta para novos surtos no período que antecede o evento desportivo.
De acordo com o diretor da Opas, Dr. Jarbas Barbosa, o vírus permanece “extremamente ágil” e pode transformar um único caso importado em focos de transmissão capazes de atingir até 18 pessoas. O especialista sublinha que, além do Canadá, Estados Unidos e México mantêm cadeias ativas de infecção. Bolívia e Guatemala também constam na lista de países com risco aumentado.
Risco ampliado com o fluxo internacional de torcedores
O campeonato de 2026 deve atrair milhões de turistas, ampliando a circulação de viajantes entre continentes. A Opas destaca que Europa, Ásia e África registram surtos relevantes, o que aumenta a probabilidade de casos importados para o território americano. Na ausência de altos níveis de imunização, tais episódios podem desencadear ondas de transmissão local.
A entidade recomenda cobrir, de forma homogênea, 95 % da população com as duas doses de vacina. O objetivo é criar uma “barreira coletiva” capaz de impedir a expansão do vírus. Para Dr. Barbosa, a estratégia passa pelo reforço das campanhas de rotina, busca ativa de não imunizados e vigilância epidemiológica constante, sobretudo em áreas de grande fluxo turístico.
Por que 95 % de cobertura é crucial
O sarampo possui índice de contágio elevado. Um indivíduo infectado é capaz de infectar até 18 pessoas em ambientes suscetíveis, número muito superior ao de outras doenças virais comuns. A única forma de conter essa capacidade é garantir que pelo menos 95 % da comunidade esteja protegida em todos os bairros, cidades e estados, reduzindo a quantidade de indivíduos vulneráveis e, consequentemente, as oportunidades de circulação viral.
Quando a cobertura é irregular, bolsões de não vacinados tornam-se porta de entrada para surtos que podem se espalhar rapidamente, sobretudo em grandes eventos, onde a rotatividade de pessoas é intensa e o controle de contatos, limitado.
Medidas recomendadas para os países-sede
Para reduzir o risco antes da Copa, a Opas sugere:
- Intensificar campanhas de imunização de rotina, com foco em crianças e adultos que não completaram o esquema de duas doses;
- Realizar varreduras locais para identificar bolsões de baixa cobertura;
- Reforçar a vigilância laboratorial para detecção precoce de casos suspeitos;
- Capacitar equipes de saúde em diagnóstico oportuno e resposta rápida a surtos;
- Orientar viajantes sobre a necessidade de vacinação pelo menos duas semanas antes da partida.
As autoridades sanitárias defendem ainda a integração de dados entre serviços de saúde, fronteiras e organizadores do torneio, garantindo comunicação ágil caso apareçam casos suspeitos em aeroportos, hotéis ou estádios.
Imagem: ilustrativa
Impacto dos surtos em andamento
Casos recentes no Canadá levaram ao reacendimento de cadeias de transmissão em províncias como Ontário e Colúmbia Britânica. Nos Estados Unidos, episódios foram reportados em Nova Iorque, Califórnia e Flórida. O México, por sua vez, confirmou contaminações em estados fronteiriços e na capital. Esses surtos locais, embora pontuais, indicam falhas pontuais nas campanhas de imunização que precisam ser corrigidas antes de 2026.
Dr. Barbosa observa que, sem resposta coordenada, a região corre o risco de novos picos epidémicos. “Sempre receberemos casos importados. A diferença entre um susto isolado e um surto extenso depende da cobertura vacinal e da capacidade de vigilância”, afirmou.
Mensagem aos torcedores
Para quem pretende acompanhar os jogos in loco, a recomendação é simples: verificar o cartão de vacinação e completar as doses em falta. Pessoas nascidas após 1970 que não tenham histórico de duas aplicações devem procurar o serviço de saúde mais próximo. Crianças a partir de 12 meses precisam receber a primeira dose, com reforço entre 4 e 6 anos ou conforme o calendário local.
A Opas alerta que a imunização é gratuita nos sistemas públicos da maioria dos países da região. Além de proteger o indivíduo, a vacinação contribui para a segurança coletiva de atletas, voluntários e demais participantes do evento.
Perspectivas até 2026
Com dois anos pela frente, os países-sede dispõem de prazo para recuperar lacunas de cobertura, fortalecer laboratórios e treinar profissionais. O desafio será manter o ritmo de aplicação, especialmente em áreas remotas ou com menor acesso aos serviços de saúde. Especialistas defendem campanhas multimídia direcionadas a grupos específicos e ações porta a porta para alcançar populações vulneráveis.
O apoio de organizações internacionais deverá incluir insumos laboratoriais, monitorização de dados e intercâmbio de boas práticas. Embora as autoridades evitem previsões, o sucesso dependerá do empenho de governos, profissionais e cidadãos.
Se as metas de 95 % forem atingidas de forma homogênea, a região terá condições de sediar o torneio sem ocorrência de surtos significativos. Caso contrário, o vírus pode explorar qualquer brecha e transformar a festa do futebol numa emergência de saúde pública.





