A cidade da Praia, capital de Cabo Verde, acolhe até sábado o I Encontro Internacional da Crioulidade Atlântica, iniciativa que reúne responsáveis das Nações Unidas, decisores políticos, académicos e agentes culturais de vários países. O objetivo central é refletir sobre identidade, memória e diversidade no espaço atlântico, sublinhando a crioulidade como ponte de diálogo e inclusão.
Praia reúne vozes de diferentes continentes
No Palácio da Cultura Ildo Lobo, local escolhido para as sessões principais, os participantes analisam património cultural partilhado, linguagens artísticas e desafios atuais das comunidades crioulas. A organização realça que o encontro pretende “aprofundar a reflexão e reforçar laços” entre povos com raízes comuns dispersos por África, Europa, América e Caraíbas.
Com mesas-redondas, apresentações académicas e atividades culturais, a programação aborda temas como:
- impacto histórico da diáspora atlântica;
- papel das línguas crioulas na afirmação identitária;
- estratégias de preservação do património imaterial;
- o valor da diversidade para o desenvolvimento sustentável.
Segundo a comissão organizadora, a escolha de Cabo Verde deve-se ao percurso do arquipélago enquanto ponto de confluência de rotas marítimas e culturas, situação que moldou a própria sociedade cabo-verdiana. A mesma fonte sustenta que «a crioulidade assume-se como resposta histórica de resistência, convivência e criatividade» num contexto marcado por sucessivas trocas humanas ao longo de séculos.
Guterres exalta papel de Cabo Verde na construção de pontes
Em mensagem em vídeo exibida na sessão de abertura, o secretário-geral da ONU, António Guterres, elogiou o país anfitrião por “reunir vozes de diversos horizontes num espírito de diálogo e celebração”. Para o líder das Nações Unidas, a iniciativa surge “num mundo tantas vezes dividido pelo medo e pela desconfiança”, oferecendo um espaço de encontro baseado em dignidade e pertença.
Guterres destacou que a cultura possui capacidade singular de «atravessar oceanos, transportando ritmos, tradições e histórias que aproximam comunidades». Nesse sentido, a crioulidade, entendida como resultado de fusões culturais, serve de exemplo de como a diversidade pode gerar coesão social em vez de fragmentação.
O secretário-geral sublinhou ainda a relevância do evento para a Agenda 2030: “Não deixar ninguém para trás implica reconhecer e valorizar a pluralidade humana.” A fala foi recebida com aplausos pelos presentes, entre eles representantes governamentais de países africanos e caribenhos, bem como membros da sociedade civil.
ONU vê crioulidade como motor de inovação social
A coordenadora residente da ONU em Cabo Verde, Patricia Portela de Souza, reforçou a mensagem de Guterres ao afirmar que a crioulidade ultrapassa a esfera histórica. Para a diplomata, trata-se de «uma ferramenta viva de inovação social», pois demonstra que «a diferença não divide; pelo contrário, fortalece».
De acordo com Portela de Souza, o conceito alinha-se diretamente com os pilares fundadores das Nações Unidas, expressos no preâmbulo “Nós, os povos”. A responsável observou que sociedades crioulas, antes consideradas periféricas, transformaram-se em espaços dinâmicos de resistência, inclusão e criatividade. “Quando a diversidade é colocada no centro das políticas, a paz e o desenvolvimento tornam-se mais sustentáveis”, frisou.
A representante lembrou ainda que a Agenda 2030 depende de abordagens culturais que valorizem o encontro de povos. «Ao convidar o mundo para discutir a crioulidade, Cabo Verde oferece contributo concreto para a meta de sociedades mais justas, resilientes e inclusivas», completou.
Imagem: ilustrativa
Debates traçam roteiro para o futuro
Além de analisar o passado comum, os participantes elaboram recomendações para políticas culturais, educativas e de cooperação internacional. Entre as propostas discutidas estão:
- criação de redes permanentes de investigação sobre línguas crioulas;
- programas de intercâmbio artístico entre países atlânticos;
- valorização do turismo cultural ligado a patrimónios crioulos;
- iniciativas de formação para jovens em artes tradicionais e novas tecnologias.
Os organizadores esperam que o encontro produza um documento-síntese com compromissos voltados para três frentes: preservação da memória, promoção da diversidade como vantagem competitiva na economia criativa e estímulo ao diálogo intercultural para prevenção de conflitos.
Autoridades cabo-verdianas presentes lembraram que o arquipélago tem apostado na cooperação cultural como eixo estratégico de política externa. O ministro da Cultura e das Indústrias Criativas, Abraão Vicente, reiterou que «a crioulidade não é apenas herança; é plataforma de desenvolvimento».
Impacto simbólico e económico para Cabo Verde
Especialistas em turismo e economia criativa apontam que a realização de um evento internacional desta magnitude traz benefícios diretos e indiretos. A hotelaria na capital regista ocupação acima da média, e pequenas empresas ligadas a gastronomia, artesanato e transportes reportam aumento de procura.
Para analistas locais, o maior ganho, contudo, reside na projeção da marca Cabo Verde como destino de diálogo cultural. A expectativa é que novas conferências e festivais internacionais passem a considerar o país como sede, estimulando investimentos em infraestruturas e capacitação profissional no sector cultural.
Crioulidade como valor global
Ao longo dos painéis, foi reiterada a ideia de que a crioulidade contém lições válidas para sociedades plurais em todo o planeta. Oradores de ilhas caribenhas, do delta do Níger e do litoral nordestino brasileiro convergiram na avaliação de que experiências históricas de mistura e adaptação podem inspirar respostas contemporâneas a desafios como migrações, discriminação e desigualdade.
Para os conferencistas, reconhecer e celebrar identidades híbridas favorece políticas públicas mais sensíveis às realidades locais e, simultaneamente, mais abertas à cooperação transnacional. “A força das culturas crioulas está na capacidade de transformar sofrimento passado em criação coletiva”, resumiu a pesquisadora haitiana Marie-Claude Jean-Baptiste.
O I Encontro Internacional da Crioulidade Atlântica encerra-se com apresentação musical que reúne artistas de Cabo Verde, Senegal, Brasil e Antilhas francesas, simbolizando a intersecção de ritmos e histórias discutidas durante a semana. A organização já avalia realizar edições futuras em outros pontos do Atlântico, de forma rotativa, para ampliar o alcance das discussões e consolidar uma rede de cooperação permanente.






