Um número crescente de criadoras tem recorrido a computadores de baixo custo, como o Raspberry Pi, para construir cyberdecks — dispositivos portáteis montados em bolsas, brinquedos ou objetos decorativos. Ao partilhar tutoriais nas redes sociais, essas utilizadoras impulsionam uma comunidade que combina hardware, arte e resistência à padronização imposta pela indústria tecnológica.
Da ficção científica às plataformas digitais
O termo cyberdeck surgiu em 1984 no romance “Neuromancer”, de William Gibson. Três décadas depois, a chegada de placas compactas como o Raspberry Pi facilitou a construção de computadores personalizados, colocando o conceito no âmbito do faça-você-mesmo. Grupos especializados existiam desde meados dos anos 2010, mas o interesse explodiu nos últimos meses, quando criadoras passaram a divulgar o processo de montagem em TikTok, Instagram e X (antigo Twitter).
Uma das vozes mais ativas é a norte-americana conhecida como CC, que se apresenta como “open source baddie”. Sem formação em engenharia, ela utiliza o blog Bimbo Tech para explicar cada etapa de projetos como um computador instalado numa concha rosa de sereia. O dispositivo inclui um Raspberry Pi 3A+, sistema operativo próprio, e integra funções de Tamagotchi, e-reader, monitor de servidor e assistente de IA local.
CC afirma que a ausência de cores vibrantes em produtos de gama alta motivou a busca por alternativas personalizáveis. Para ela, as versões “Pro” ou “Elite” de fabricantes consolidadas tendem a restringir-se a acabamentos pretos ou prateados, enquanto um cyberdeck pode adotar qualquer estética, incluindo o rosa.
Arte têxtil e eletrónica no mesmo projeto
Outra referência é a desenvolvedora de blockchain Maro Vardanyan, que utiliza técnicas de crochê e macramê para criar bolsas e coletes com placas de computador reaproveitadas. Segundo a artista, o trabalho remete às primeiras memórias de núcleo magnético, nas quais mulheres especializadas teciam fios de cobre para representar os zeros e uns da computação. Na década de 1960, esse método foi fundamental para o computador de bordo do programa Apollo.
Vardanyan tece Raspberry Pi em fios cor-de-rosa, envolve as peças em resina acrílica para proteção e usa linha condutiva para preservar a funcionalidade dos pinos GPIO. As imagens dos protótipos viralizaram e, embora tenham atraído críticas sobre suposto desperdício de componentes, a criadora sustenta que o objetivo é valorizar a história do hardware e demonstrar que a eletrónica pode dialogar com a moda.
Exemplos que fogem ao padrão industrial
Além dos projetos citados, circulam nas redes:
- Um cyberdeck construído em madeira e musgo que roda jogos do Game Boy Color.
- Um reprodutor de MP3 alojado em um fóssil impresso em 3D, inspirado no deserto.
- Uma casa da Barbie que se abre para revelar um mini-computador funcional.
- Um patinho de cerâmica capaz de gravar mensagens de voz.
Os criadores admitem que muitos desses dispositivos não competem em desempenho com um PC tradicional. A intenção é rejeitar a “caixa-preta” de aparelhos selados e estimular o controlo total pelo utilizador, mesmo que isso sacrifique eficiência ou ergonomia.
Motivações ligadas a privacidade e autonomia
Em vídeos no TikTok, a criadora Sarahbelle Kim resume o apelo do movimento: “Prefiro piratear livros numa concha enfeitada a usar óculos inteligentes da Meta”. A frase reflete críticas à recolha de dados por grandes empresas e ao bloqueio de modificações em produtos comerciais. Ao aprender eletrónica básica, quem monta um cyberdeck decide quais sensores instalar, que software executar e quando atualizar o sistema.
Imagem: Gadgets e Tech
Resposta a comentários depreciativos
Embora a maioria das interações seja positiva, responsáveis pelos projetos relatam episódios de menosprezo em fóruns e redes sociais. CC recorda um utilizador no Reddit que questionou o uso de um Raspberry Pi numa bolsa de sereia durante um período de escassez de memória RAM. Após debate técnico, o crítico pediu desculpas e chegou a enviar uma placa para o próximo protótipo da criadora.
Vardanyan enfrenta observações semelhantes, como dúvidas sobre perda de energia nos pinos ou sobre resistência à chuva. Ela costuma responder com detalhes sobre isolamento em resina e condutividade dos fios, demonstrando que os objetos continuam funcionais.
Impacto na participação feminina em hardware
As iniciativas também têm efeitos na representatividade. Segundo Vardanyan, eventos de tecnologia contavam com poucas mulheres há dez anos, e muitas vezes surgia a suposição de que estariam ligadas apenas ao marketing. A proliferação de tutoriais acessíveis muda esse cenário ao mostrar que habilidades de soldagem, impressão 3D ou programação podem ser aprendidas de forma colaborativa.
Para CC, a partilha aberta de conhecimento cria um ciclo virtuoso: quanto mais pessoas montam cyberdecks, maior é a produção de guias em vídeo e texto, facilitando a entrada de novos participantes sem formação prévia.
Perspectivas para o movimento
Analistas de mercado ainda não medem o impacto comercial desses projetos, mas algumas lojas independentes já vendem kits com gabinetes coloridos, cabos, botões retroiluminados e baterias portáteis. Como o hardware essencial custa menos de 100 dólares, o principal investimento continua a ser tempo e criatividade.
A trajetória recente indica que o fascínio pelo cyberdeck vai além da aparência. Usuários enfatizam a possibilidade de instalar sistemas operativos personalizados, executar modelos de inteligência artificial localmente e manter os dados longe de servidores externos. Esse conjunto de fatores alimenta um ecossistema que valoriza transparência, reparabilidade e autoexpressão.
Em síntese, mulheres como CC, Maro Vardanyan e Sarahbelle Kim transformaram o cyberdeck em símbolo de autonomia tecnológica. Ao integrar electrónica, design e memória histórica, elas expandem o universo do DIY e convidam novos públicos a questionar a lógica dominante dos dispositivos fechados.






