Nova técnica solar dessaliniza água do mar sem salmoura e ainda recupera lítio

Pesquisadores da Universidade de Rochester, nos Estados Unidos, apresentaram um sistema de dessalinização que utiliza energia solar para transformar água do mar em água potável sem gerar salmoura e com capacidade adicional de recuperar lítio em estado sólido. A solução, descrita por Luheng Tang e desenvolvida em parceria com o professor Chunlei Guo, promete reduzir custos operacionais, minimizar impactos ambientais e criar uma nova rota para a obtenção de minerais estratégicos.

Processo solar-térmico elimina salmoura

No método proposto, o painel responsável pela evaporação solar passa por tratamento a laser que cria nanoestruturas capazes de absorver praticamente toda a luz incidente. Essa superfície microporosa compõe a chamada região ativa do dispositivo, onde uma fina lâmina de água é aquecida e destilada. O vapor resultante condensa-se em água doce, enquanto os sais permanecem fora da área funcional.

Para evitar o acúmulo de resíduos que costuma entupir membranas ou filtros convencionais, o grupo aproveitou o chamado “efeito anel do café”. O fenômeno, observado quando gotas de café secam e formam um anel de partículas na borda, foi replicado ao direcionar os sais para as laterais não tratadas do painel — a região passiva. Por não haver fluxo de água nessa extremidade, o sal cristaliza em camadas sólidas sem interferir na destilação contínua.

Ensaios realizados com amostras reais dos oceanos Pacífico, Atlântico e Índico registraram taxa média de evaporação de 1,76 kg m-2 h-1, índice que corresponde a eficiência de conversão solar em vapor de aproximadamente 74%. Além disso, o dispositivo removeu quase 100% dos sais dissolvidos, obtendo sal sólido na proporção de 61,74 kg m-2 h-1.

Extração de sais e lítio em estado sólido

A ausência de salmoura líquida é apontada como vantagem ambiental expressiva. Instalações de osmose reversa ou destilação térmica necessitam descartar solução residual com alta salinidade, o que pode elevar a concentração de sal e reduzir o oxigênio nos ecossistemas costeiros. No novo sistema, todo o cloreto de sódio e outros minerais precipitam-se na forma sólida, simplificando a coleta e o armazenamento.

Os pesquisadores também testaram a viabilidade de separar elementos de maior valor econômico. Ao incorporar nanopartículas de titanato de hidrogênio nos sulcos laser da superfície, o grupo conseguiu isolar lítio dos demais sais presentes. Ensaios preliminares utilizando água do Grande Lago Salgado, no estado de Utah, indicaram recuperação de aproximadamente 50% do lítio disponível. O metal é essencial para baterias recarregáveis usadas em smartphones, veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia.

A extração direta de lítio da água do mar ou de lagos salinos surge como alternativa a métodos convencionais de mineração, que demandam grandes volumes de água doce, reagentes químicos e etapas de concentração com elevado consumo energético. Segundo Chunlei Guo, a rota solar-térmica pode oferecer solução menos onerosa e com menor pegada ambiental.

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Imagem: NewsUp Brasil

Menor consumo de energia e manutenção simplificada

Além de dispensar pré-tratamento químico, o protótipo opera exclusivamente com energia solar, reduzindo a dependência de fontes externas de eletricidade. Como não há membranas semipermeáveis nem bombas de alta pressão, componentes sujeitos a desgaste mecânico são eliminados, o que tende a diminuir custos de manutenção.

Os autores afirmam que o painel negro autolimpante pode funcionar de forma contínua, pois a região ativa permanece livre de incrustações. A remoção periódica dos cristais depositados na região passiva pode ser automatizada ou realizada manualmente, dependendo da escala da instalação.

Próximos passos e perspectivas de aplicação

Embora os resultados de laboratório sejam promissores, a equipe ainda precisa demonstrar a viabilidade em larga escala. Entre os desafios estão a fabricação de painéis em dimensões industriais, a durabilidade das nanoestruturas sob exposição prolongada ao sol e ao ambiente marinho, além do desenvolvimento de processos eficientes para a coleta e purificação do lítio recuperado.

Mesmo assim, a combinação de dessalinização, produção de sal de cozinha e obtenção de minerais estratégicos num único sistema atrai interesse de setores energéticos e de abastecimento. Regiões com alto índice de radiação solar e acesso limitado a água potável, como zonas costeiras áridas, podem se beneficiar diretamente da tecnologia.

Com a demanda global por água doce e lítio em crescimento, a proposta da Universidade de Rochester destaca-se como alternativa potencialmente sustentável. Caso os obstáculos de escala e custo sejam superados, o método solar-térmico poderá oferecer solução integrada para desafios hídricos e de matérias-primas na próxima década.

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