Anfavea alerta que montagem com kits importados pode cortar 69 mil empregos

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São Paulo — A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) divulgou um estudo que estima a perda de 69 mil empregos diretos e 227 mil indiretos caso a produção completa de automóveis no Brasil seja substituída pela montagem de veículos importados em kits CKD ou SKD.

Estudo projeta impacto no emprego e na economia

O levantamento da entidade projeta prejuízo de até R$ 103 milhões para fabricantes de autopeças, além de redução de cerca de R$ 26 bilhões na arrecadação tributária em um único ano. A queda nas exportações de automóveis poderia chegar a R$ 42 bilhões no mesmo período, afetando a balança comercial brasileira.

No regime Completely Knocked Down (CKD), o veículo chega totalmente desmontado ao país e passa por processos de soldagem, pintura e integração de componentes em território nacional. Já no modelo Semi Knocked Down (SKD), o carro é enviado quase pronto, exigindo apenas etapas finais de montagem, com menor complexidade industrial.

Para a Anfavea, a ampliação dessas modalidades sem contrapartidas de conteúdo local fragiliza a cadeia de fornecedores e reduz a geração de postos qualificados. O estudo destaca que 65% do valor agregado de um automóvel produzido integralmente no Brasil está concentrado em peças e sistemas fabricados internamente, proporção que cairia para 20% se o país migrasse para a montagem simples de kits.

Anfavea pede fim de isenção para kits desmontados

A discussão ganhou força após o governo federal conceder, em 2023, uma cota adicional de US$ 463 milhões com alíquota zero de Imposto de Importação para veículos elétricos e híbridos desmontados. O benefício, válido até 31 de janeiro, favoreceu principalmente a fabricante chinesa BYD, que opera no modelo SKD em Camaçari (BA).

Com o prazo prestes a expirar, a Anfavea intensificou a pressão para que a isenção não seja renovada. Segundo o presidente da entidade, Igor Calvet, manter incentivos à montagem em grande escala sem exigência de conteúdo nacional ameaça a “indústria de alta complexidade” instalada no país. Ele ressalta que diversas montadoras iniciaram operações via CKD ou SKD, mas migraram para fábricas completas após investir localmente. “O problema é prolongar incentivos sem contrapartida, criando distorções competitivas”, afirma.

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Imagem: ultimas notícias

O executivo também defende condições equivalentes entre novas entrantes e fabricantes já estabelecidos. “A indústria nacional não teme concorrência, desde que haja regras iguais para todos”, diz. A associação publicou manifesto em que reitera apoio à concorrência, mas rejeita incentivos que não exigem aportes produtivos e tecnológicos.

O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços informou que o sistema de cotas para CKD e SKD termina neste mês e, até o momento, não recebeu pedido formal de prorrogação. A BYD não se pronunciou sobre o tema.

Segundo a Anfavea, o Brasil possui 61 fábricas de veículos leves, pesados e máquinas, responsáveis por empregar diretamente 126 mil pessoas. O estudo destaca que, em 2023, a indústria automotiva representou 19% do PIB industrial e gerou R$ 183 bilhões em tributos. Esses indicadores, aponta a entidade, estariam em risco caso a cadeia produtiva nacional se limitasse à montagem dos kits importados.

Além do efeito sobre empregos e arrecadação, o relatório cita impacto no desenvolvimento tecnológico. A pesquisa, o design e a engenharia respondem por 5% a 10% do valor de um veículo produzido integralmente no país e seriam parcialmente deslocados para o exterior em um cenário de dependência de CKD e SKD.

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