Anvisa libera lecanemabe e reforça arsenal contra Alzheimer em estágio inicial

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A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o lecanemabe, medicamento indicado para pessoas com doença de Alzheimer em fase inicial ou comprometimento cognitivo leve. Comercializado com o nome Leqembi, o fármaco foi desenvolvido pela japonesa Eisai em parceria com a norte-americana Biogen e passa agora a ter autorização para ser vendido no Brasil.

Indicação e mecanismo de ação

O lecanemabe atua na redução de placas de beta-amiloide no cérebro, proteína associada à progressão do Alzheimer. Ao diminuir esses depósitos, o remédio busca retardar o declínio cognitivo observado nos estágios iniciais da doença. Diferentemente de terapias usadas há mais tempo, como donepezila, galantamina, rivastigmina ou memantina, o novo agente não se destina a aliviar sintomas como perda de memória ou desorientação; o objetivo principal é atrasar o avanço da patologia.

A autorização publicada em 22 de dezembro estabelece que o tratamento só pode ser iniciado em pacientes sem sinais de hemorragia ou edema cerebral. A bula também restringe o uso em pessoas que fazem terapia contínua com anticoagulantes, devido ao risco aumentado de sangramentos.

Resultados clínicos do estudo Clarity AD

A decisão da Anvisa baseou-se nos dados do ensaio de fase 3 Clarity AD, conduzido em 1.795 voluntários com Alzheimer em estágio inicial. Durante 18 meses, os participantes receberam doses regulares de lecanemabe ou placebo. Ao final do acompanhamento, o grupo tratado apresentou declínio cognitivo significativamente menor, medido por escalas clínicas padronizadas. Apesar da diferença estatística, especialistas apontam que o ganho funcional percebido na rotina do paciente ainda é considerado modesto.

Os eventos adversos documentados incluem dores de cabeça, pequenas hemorragias cerebrais e acúmulo de líquido (edema). Por esse motivo, a Anvisa determinou monitorização por ressonância magnética antes e durante o tratamento.

Posicionamento no cenário terapêutico

O lecanemabe é o segundo anticorpo monoclonal aprovado no Brasil para atacar diretamente proteínas relacionadas ao Alzheimer. O primeiro foi o Kisunla (donanemab), liberado em abril de 2025. Nos Estados Unidos o caminho foi inverso: lá, o lecanemabe recebeu o aval do FDA em julho de 2023, seguido pelo donanemab um ano depois. Na Europa, a Agência Europeia de Medicamentos aprovou o lecanemabe em abril de 2025, enquanto rejeitou o donanemab em março do mesmo ano.

Com duas opções semelhantes no mercado, médicos terão mais recursos para tentar postergar a evolução da doença, embora ambos os fármacos dividam a comunidade científica quanto ao impacto clínico real.

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Custo e desafios de acesso

O preço continua a ser o principal obstáculo à adoção em larga escala. Nos Estados Unidos, o tratamento anual com lecanemabe chega a US$ 50 mil, aproximadamente R$ 269 mil. Já o donanemab custa por volta de US$ 32 mil (cerca de R$ 172 mil). Integrar valores desse porte à rotina do Sistema Único de Saúde (SUS) é considerado improvável no curto prazo.

De acordo com Mychael Lourenço, professor do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ, o elevado investimento torna a incorporação no setor público “muito difícil”. Na rede privada, porém, pacientes que cumprirem os critérios clínicos poderão ter acesso ao novo tratamento, dependendo da cobertura de cada plano de saúde.

Impacto potencial no Brasil

Dados da Eisai indicam que quase dois milhões de brasileiros vivem com algum tipo de demência, sendo cerca de 70% atribuídos ao Alzheimer. Projeções apontam que o número pode triplicar até 2050, tendência que pressiona sistemas de saúde e famílias. Para Rodrigo Nascimento, diretor médico da subsidiária brasileira da empresa, a chegada do lecanemabe oferece “perspectiva de atraso na progressão da doença” e, consequentemente, mais tempo de autonomia para os doentes.

Mesmo com benefícios limitados e custo elevado, a aprovação marca um avanço na estratégia de combate ao Alzheimer no país. A partir de agora, hospitais e médicos poderão solicitar o produto, que deve chegar ao mercado com orientações explícitas sobre seleção de pacientes, monitorização de segurança e frequência de administração.

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